Arquivos para Mind and Life Institute

2016-02-09-madison-liveweb

Na tarde de ontem, quem teve a sorte de estar em casa ou ao menos de ter a possibilidade de passar 1h30 conectado à internet, pôde desfrutar do painel “The World We Make – Well Being in 2030”, encontro realizado pelo Mind and Life Institute, que ao menos anualmente aproxima cientistas de Sua Santidade o Dalai Lama. O encontro foi transmitido ao vivo, diretamente da Universidade de Wisconsin, no dia 9/março/2016 mas, até o momento em que estou escrevendo este post, infelizmente a gravação do evento não está disponível.

O que eu gostaria de registrar aqui foi a participação de Richard Davidson – neurocientista brilhante, apontado como um dos homens mais influentes do mundo pela Revista Time, que dirige o Center For Healthy Minds, na Universidade de Wisconsin.

Nesse próprio evento, Richard Davidson lembrou como o Dalai Lama, se não me engano, há mais de 20 anos direcionou a carreira dele como pesquisador perguntando se não seria possível estudar os aspectos positivos da mente (além das doenças) e como desenvolver estratégias para intensificar a saúde mental e o bem-estar. Desde então, esse tem sido o propósito de sua vida como pesquisador.

E as notícias que ele nos deu em sua fala nesse painel são excelentes: o bem-estar pode ser treinado – é uma habilidade, e não apenas algo que nos acontece ou não.

Richard Davidson apresentou ao Dalai Lama e aos demais participantes do painel o que ele chama de quatro componentes do bem-estar, identificados e estudados pela neurociência. Existem evidências de que o treinamento mental nessas habilidades pode fazer uma grande diferença na experiência bem-estar das pessoas e até mesmo criar novos circuitos neurais, remodelando as respectivas regiões do cérebro.

Esses componentes do bem-estar são:

Resiliência

A rapidez com que somos capazes de nos recuperar das adversidades. Uma maior resiliência pode resultar em menos experiências negativas e também proteger contra distúrbios mentais.

 

Perspectiva positiva

Aqui Richard Davidson citou a visão que o próprio Dalai Lama sustenta com respeito à bondade inata dos seres humanos, buscando enxergar sementes de gentileza e compaixão nas pessoas.

 

Atenção

Richard Davidson destacou aqui o estudo realizado por Dan Gilbert, da Universidade de Harvard em 2010, que demonstrou que em cerca de 47% do tempo de vigília as mentes das pessoas estão vagueando e isso está associado à experiência de infelicidade.

Os 2.250 participantes desse estudo recebiam um SMS com três perguntas:
1 – como você está se sentindo neste momento? escala de 0 a 100
2 – o que você está fazendo? lista com 22 atividades
3 – você está pensando no que está fazendo, em outras palavras, você está presente?

harvard
47% das respostas eram que estavam distraídas e estar distraída correspondia a um grau menor de bem-estar, independente da tarefa. O resultado do estudo foi “a mente humana é uma mente que vagueia e uma mente que vagueia é uma mente infeliz”.

Neste momento, Davidson também citou um trecho da obra de William James – The Principles of Psychology – que o Prof Alan Wallace também cita frequentemente:

 

A faculdade de trazer uma mente que vagueia de volta, vez após vez, é a raiz do julgamento, do caráter e da vontade. Ninguém pode ser mestre de si mesmo sem atenção. Uma educação que melhore essa faculdade deve ser considerada a educação par excellence.”

 

 

 

 

 

Generosidade

As evidências citadas aqui mostram que atos de generosidade têm um efeito duplo: trazem felicidade para quem é generoso e para quem é beneficiado.
O Dalai Lama comentou dizendo que sempre recomenda que se a pessoa quiser ser egoísta, que seja um egoísta inteligente. A melhor forma de se dar bem é fazendo os outros felizes.

 

Fica a qui a expressão de um desejo e uma promessa: espero que o vídeo desse encontro fique disponível – esse é o desejo. E a promessa é de legendar ou ao menos transcrever a fala de Sua Santidade o Dalai Lama, que seguramente foi a parte mais importante mas que eu, infelizmente, não consegui registrar na íntegra.

Davidson_Richard

Este estudo, realizado por pesquisadores de Wisconsin, Espanha e França, investigou os efeitos de um dia de prática meditativa intensiva em um grupo de meditadores experientes, em comparação a um grupo controle de indivíduos não treinados, que se dedicaram a atividades tranquilas mas não à meditação. Após oito horas de prática, os meditadores apresentaram diversas diferenças genéticas e moleculares, incluindo alteração dos níveis de mecanismos genéticos de regulação e níveis reduzidos de genes pró-inflamatórios, que por sua vez se correlacionaram a uma recuperação física mais rápida a uma situação estressante.

O autor do estudo Dr. Richard Davidson revela: “Até onde sabemos, este é o primeiro trabalho que demonstrou alterações rápidas na expressão de genes em praticantes de meditação”.

http://www.news.wisc.edu/22370

Se desejar ler o resumo do artigo original, aqui está:

http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0306453013004071

Muitas vezes as coisas mais óbvias são as mais difíceis de enxergar. É bom que olhemos por vários ângulos diferentes, que ouçamos das mais diversas formas, usufruindo do talento generoso de pessoas que buscam compartilhar suas experiências e visões sobre, afinal, como podemos ser mais felizes!

Aqui está uma seleção de conferências de pessoas assim! Que em 2014 nós possamos nos alegrar com as coisas mais simples da vida!

71aec3246b3aebe6d284668935080bda4fa8b41a_389x292

(Clique na imagem de Matthieu Ricard para assistir aos vídeos, quase todos com legendas em português)

1. Dan Gilbert –  O que nos faz felizes?

Dan Gilbert, autor de “Stumbling on Happiness” (Tropeçando na Felicidade), contesta a idéia de que seremos infelizes se não tivermos o que queremos. Nosso “sistema imunológico psicológico” permite que sejamos felizes mesmo quando as coisas não são como planejamos.

2. Malcolm Gladwell sobre Molho de Espaguete

Autor de Tipping Point, Malcolm Gladwell detalha a busca pelo molho de espaguete perfeito pela indústria alimentícia — e faz uma discussão mais ampla sobre a natureza da escolha e da felicidade.

3. ihaly Csikszentmihalyi: Flow, o segredo da felicidade

Csikszentmihalyi pergunta, “O que faz a vida valer a pena?”. Observando que o dinheiro não traz felicidade, ele analisa aqueles que encontram prazer e satisfação duradoura em atividades que levam ao estado de “Flow”.

4. Michael Norton – Como comprar a felicidade?

TEDxCambridge, Michael Norton compartilha uma pesquisa fascinante sobre como o dinheiro pode, de verdade, comprar felicidade — quando você não gasta consigo mesmo. Fique atento aos dados surpreendentes sobre as muitas maneiras como o gasto prossocial pode beneficiar você, seu trabalho e (claro) outras pessoas.

5. Barry Schwartz sobre o paradoxo da escolha

O psicólogo Barry Schwartz mira em um dos dogmas centrais da sociedade ocidental: liberdade de escolha. Schwartz estima que a escolha nos tornou menos livres e mais paralisados, mais insatisfeitos em vez de mais felizes.

6. David Steindl-Rast: Quer ser feliz? Seja grato (legenda em espanhol)

A única coisa que todos os seres humanos temos em comum é que cada um de nós quer ser feliz, diz o Irmão David Steindl-Rast, um monge e erudito interreligioso. E a felicidade, sugere, nasce da gratidão.

7. Graham Hill: Menos coisas, mais felicidade

Escritor e designer Graham Hill pergunta: Será que ter menos coisas, em um espaço menor, leva a mais felicidade? Ele argumenta em favor de ocupar menos espaço e coloca três regras para que você possa editar sua vida.

8. Matthieu Ricard: sobre os hábitos da felicidade

O que é a felicidade e como podemos conquistá-la? Matthieu Ricard, bioquímico que se tornou monge Budista, afirma que podemos treinar nossa mente nos hábitos do bem-estar para gerar um verdadeiro sentimento de serenidade e realização.

9.  Daniel Kahneman: O enigma da experiência x memória

Os exemplos que vão desde férias até colonoscopias, o vencedor do prêmio Nobel e fundador da economia comportamental Daniel Kahneman revela como nossas duas individualidades, o “eu da experiência” e o “eu das lembranças” percebem a felicidade de forma diferente. Essa revelação tem implicações profundas na economia, na política pública — e em nossas consciências.

10. Ron Gutman: O poder oculto do sorriso

Ron Gutman revê uma série de estudos sobre o sorriso e revela resultados surpreendentes. Você sabia que o seu sorriso pode prever quanto tempo você irá viver – e que um simples sorriso possui um efeito mensurável do seu bem estar? Prepare-se para mexer alguns músculos faciais enquanto você aprende mais sobre esse comportamento evolucionário contagiante.

A vida dele é a busca de uma eterna busca.
É o futuro que cria o seu presente.
Tudo é uma cadeia interminável de desejo.

Robert Frost

gregdunn_artwork_hr2

~ Sharon Salzberg – MInd and Life Institute

Há muito tempo penso que neste trecho do poema, “Escapista – Nunca”, Robert Frost capta muito do que as tradições contemplativas descrevem como desejo, uma fonte de grande sofrimento. Desejo é diferente de força motivadora, intencionalidade e determinação; no desejo há um elemento de fixação sobre o que não se tem, em detrimento de apreciar e de ser grato por aquilo que se tem. É uma busca que nunca termina, que sempre segue pensando na próxima fonte potencial de alegria, enquanto a sensação de suficiência ou de satisfação no momento presente nos escapa.

Veja onde nós estamos buscando pela felicidade: naquilo que ainda não está aqui.

No poema, há também pistas sobre as maneiras pelas quais podemos confundir prazeres temporários com a felicidade mais profunda que está à nossa disposição.

Existe uma ansiedade na felicidade que se baseia exclusivamente na experiência do prazer (por ser tão agradável), porque junto com essa dependência vem a necessidade de o prazer nunca mudar. Nós provavelmente já experimentamos o cansaço de passar de um objeto a outro, de experiência em experiência, necessitando de cada vez mais intensidade, sem estímulo suficiente para nos sentirmos vivos enfim, e que precisamos encontrá-lo… em algum lugar. Esta é a espiral viciante: não estarmos atentos o suficiente para nos conectarmos fortemente com o que está acontecendo agora, e tentando evitar o inevitável – a insatisfação provocada por focar mais e mais o desejo.

Então, como vamos nos libertar do hábito de desejar?

Há aquele exemplo do sapo que está em um pequeno lago e é informado sobre a existência do oceano. O sapo não acredita no que lhe é dito, por estar tanto tempo submerso em seu pequeno lago, tão familiar e tão perdido nesse mundo circunscrito. O sapo não pode sequer imaginar outras possibilidades. Para explorar o mundo além da fixação do desejo, precisamos ampliar nossa imaginação, o nosso sentido de aspiração, do que é possível para nós, e explorar nossas próprias mentes.

Podemos estabelecer uma relação diferente com a nossa própria insatisfação, para que quando ela aparecer nós possamos olhar para ela de uma forma mais saudável, em vez de tentar evitá-la ou encobri-la. Podemos nos lembrar de apreciar o que está aqui, o que temos, e nos lembrar de que tudo muda inevitavelmente. Isso tudo diz respeito à meditação, que é o cultivo de uma qualidade de consciência que muda nossa relação a nossa experiência, seja ela qual for neste momento. Se sentimos que a experiência é agradável, aprendemos a estar com ela de forma mais plena, com menos distração, e deixando-a mudar. Se achamos que a experiência neste momento é dolorosa, aprendemos enfrentá-la de forma mais honesta e com mais compaixão, em vez de tentar fazer qualquer coisa para fugir dela. Se a experiência no momento presente nos parece ser neutra, nem agradável e nem desagradável, simplesmente rotineira ou comum, podemos aprender a quebrar o ciclo da busca interminável por mais intensidade, e nos conectar mais plenamente ao que está aqui, neste momento.

É assim que escapamos da prisão do desejo.

sharon-salzberg

Sharon Salzberg é co-fundadora da Insight Meditation Society (IMS), em Barre, Massachusetts. Ela estuda a meditação desde 1971, orientando retiros em todo o mundo desde 1974. Seu livro mais recente, best-seller do The New York Times, é Real Happiness: The Power of Meditation: A 28-Day Program, publicado pela Workman Publishing. Ela é um colaboradora regular de The Huffington Post e é também o autora de vários outros livros, incluindo The Force of Kindness (2005), Faith: Trusting Your Own Deepest Experience (2002), and Lovingkindness: The Revolutionary Art of Happiness (1995). 

Wendy Hasenkamp. Mind and Life Institute

Meditation_at_SRI_650 (1)

Você tem familiares, amigos, colegas que dizem que não conseguem meditar?

A neurocientista residente do Mind and Life Institute, Wendy Hasenkamp, explora os equívocos populares sobre meditação e as razões para se continuar tentando.

Quando eu explico para alguém que estou envolvida em pesquisa sobre meditação, não é incomum ouvir: “Ah, meditação – eu tentei. Mas não consigo meditar.”

Essa resposta me traz um misto de emoções com partes iguais de tristeza e frustração, junto com uma grande dose de motivação.

Tristeza porque as pessoas tiveram experiências com a meditação em uma perspectiva negativa e a associaram a uma sensação de ter fracassado. Frustração porque essa associação sempre vem de um mau entendimento cultural sobre o que é a meditação (e o que deve se sentir quando pratica). E motivação: para mudar essa percepção equivocada, para que aqueles que estiverem interessados possam experimentar os benefícios da prática da meditação.

Continue lendo…

compaixão2

Uma moeda ou um sorriso

A meditação está associada a uma série de benefícios à saúde, incluindo uma melhor saúde mental, melhor cognição funcional, e até mesmo a um aumento da massa cinzenta no cérebro.

No entanto, as implicações sociais da meditação nunca foram estudadas cientificamente. “Sabemos que a meditação melhora o bem-estar físico e psicológico”, disse Paul Condon, um estudante de pós-graduação no laboratório de David DeSteno, investigador principal. “Queríamos saber se a meditação realmente favorece o comportamento compassivo.”

Em um novo estudo conduzido por Condon, a equipe DeSteno mostrou que mesmo um breve período de treinamento de meditação é de fato suficiente para incrementar em quase quatro vezes a atitude compassiva para com um estranho em sofrimento. Os resultados serão em breve publicados na revista Psychological Science.

Continue lendo…