Arquivos para Felicidade

Na semana passada, no post O bem-estar é uma habilidade que pode ser treinada, fiz uma promessa: traduzir a fala de Sua Santidade o Dalai Lama quando o vídeo fosse disponibilizado. Imediatamente meu amigo querido Gustavo Gitti me enviou o link e, agora, estou cumprindo a promessa, com a ajuda luxuosa da minha maior parceira, minha irmã, Audrey Ruggiero Pilli. Meu desejo mesmo era legendar o vídeo, mas ele está protegido por direitos autorais, infelizmente.

Mas aqui está a transcrição completa dessa fala sensacional de Sua Santidade o Dalai Lama, no evento organizado pela Universidade de Wisconsin, especialmente por Richard Davidson, diretor do Center For Healthy Minds.

A participação do Dalai Lama no encontro “The World We Make – Well Being in 2030“, começa após uma pergunta de Soma Stout, Executiva do “Institute for Healthcare Improvement” relacionada a equidade:

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“Como é possível sermos felizes se todos os seres não forem felizes?”

E segue então a fala do Dalai Lama, na íntegra:

“Primeiramente o que eu sempre digo para as pessoas é que nós somos animais sociais. Nós precisamos desse senso de comunidade, de interdependência, biologicamente, por uma questão de sobrevivência. Mas às vezes eu acho que o autocentramento, esse senso de “eu, eu, eu” se torna dominante. Mas basicamente, nós como indivíduos, nossa vida, dependem do senso de comunidade, depende de todos os outros seres. No passado, as pessoas eram mais ou menos autossuficientes como, por exemplo, os nativos americanos. Eles não precisavam interagir com os outros continentes. Mas hoje em dia a situação não é a mesma – existe hoje uma forte interdependência. Especialmente a economia é fortemente interdependente. Até mesmo a questão ambiental está nos dizendo que nós, seres humanos, deveríamos trabalhar juntos – como uma família, como uma unidade. É isso que a questão climática está nos dizendo. Então o senso de comunidade, o senso de sermos animais sociais, neste momento é muito relevante. Biologicamente nós temos potencial pra isso, mas a chave é a educação. A educação pode nos trazer mais consciência disso, dessa realidade.”

Aí então o Dalai Lama pega um boné que ele ganhou do Richard Davidson onde está escrito: “Mude sua mente, mude o mundo” e ele diz:

“Isso é muito bom. Nesse caso o mundo pode significar a combinação de todos os seres humanos. Primeiramente, então, essa mudança deveria começar no âmbito individual, mas se a mudança não acontecer nos indivíduos, se não houver um esforço, a mudança que se espera no mundo não vai acontecer. Isso é uma séria ignorância da causalidade, da lei da causalidade. A humanidade é uma combinação de indivíduos e, portanto a mudança precisa começar por cada indivíduo.

Eu sempre reflito assim quando penso em um problema. Quando eu penso em um problema imenso, eu penso então que mais seriamente, mais realisticamente, cada indivíduo precisa fazer um esforço. Se uma pessoa decide fazer algum esforço em direção da solução do problema, o esforço desse indivíduo pode impactar outro indivíduo e então cem pessoas, mil pessoas, cem mil pessoas, dez milhões de pessoas. É assim que a mudança acontece. E novamente eu acho que a chave é a consciência.

Eu acho que a forma de pensar, a forma de viver de muitos de nós, não é realista. Existe uma lacuna enorme entre a nossa percepção e a realidade como ela é. A educação precisa fazer essa aproximação – entre a nossa percepção e a realidade. Mas a educação hoje em dia apenas fala, pensa em valores externos. Os valores internos são quase que completamente negligenciados. Eu também posso dizer que existe uma ignorância com respeito ao nosso mundo interno. E assim a gente acaba não prestando atenção, achando que o mundo interno é do jeito que é. Não há como mudá-lo sem ser por meio da conscientização ou por meio da educação. Mas é preciso começar a mudar, começar a mostrar que há uma possibilidade de mudar, até mesmo do ponto de vista biológico, no cérebro. Isso pode trazer um imenso beneficio pra saúde. Então nossa mente pode se tornar mais pacífica. Não uma paz como um tipo de entorpecimento, de torpor, mas uma paz completamente consciente, alerta aos riscos e a todas as coisas. E assim a inteligência combinada com uma força interna, combinada a uma autoconfiança baseada na verdade, e isso combinado a um coração compassivo, nos permite olhar para os outros como irmãos e irmãs. Nós precisamos viver em conjunto; o seu futuro depende do futuro do outro, o futuro do outro também depende do seu futuro, em alguma medida.

A felicidade humana é um objetivo comum, é um interesse comum, mas é claro que nós somos egoístas. O egoísmo é chave para sobrevivência. Sem o egoísmo não é possível sobreviver. Então o egoísmo é bom. Mas há muitos anos eu venho dizendo que o egoísmo precisa ser um egoísmo esperto, inteligente, sábio ao invés de um egoísmo tolo. O problema é que o egoísmo tolo é assim: isso é meu, meu, meu, meu, e para eu ganhar alguma coisa para mim, para eu conseguir alguma coisa, eu penso “como que eu posso explorar essa pessoa aqui, aquela outra…”. Esse é o egoísmo tolo. Mas a sua felicidade, o seu bem estar na vida depende dos outros seres humanos. Então cuidar, compartilhar de uma forma sincera, traz honestidade, traz verdade e daí você pode viver de uma forma transparente, o que traz confiança e o que traz amizade. Nós precisamos de amigos.

Então é simples! Eu não estou falando de uma vida futura. Sua vida futura é problema seu, mas o bem estar de sete bilhões de pessoas é uma responsabilidade comum. E a educação tem um papel fundamental. Para que nós possamos abordar um problema, nós precisamos olhar de vários ângulos diferentes. A partir de um único ponto de vista, de uma única dimensão não é possível observar o problema de forma plena. Nós temos que olhar de vários ângulos diferentes. Nós temos que conhecer o quadro inteiro da realidade senão o seu esforço se torna não realista. Então a consciência é um fator fundamental, é um fator chave. O que nós podemos dizer é que grande parte dos problemas que nós estamos enfrentando se devem à falta de consciência sobre a realidade. Eu penso assim.”

E então o Dalai Lama pergunta para a Soma Stout:

“E aí? Você gostaria de debater?”

Soma Stout responde:

“Eu jamais argumentaria com o senhor, Sua Santidade. Eu sei que o senhor é um grande debatedor com muitos anos de experiência.”

Dan Haris, o apresentador do debate faz uma pergunta que poderia ser resumida assim:

“Existe uma onda de prática de meditação e essas práticas, embora sejam cada vez mais populares, elas também são acusadas de ser um budismo disfarçado e de ser sectárias. Então uma vez que essas práticas de fato derivam do budismo, como é que elas poderiam não ser consideradas sectárias?”

                      A resposta do Dalai Lama:

“Eu entendo que todas as religiões são religiões de seres humanos, não de deuses ou de anjos, são religiões de seres humanos e eu entendo que todas as religiões enfatizam e dão importância ao amor. As religiões ensinam práticas de tolerância, de generosidade, de abandonar o egoísmo, todas elas reconhecem que nós temos negatividades e que há emoções que são destrutivas. E pra trazer felicidade para o indivíduo é preciso entender que a fonte verdadeira e absoluta da felicidade é o amor. E assim todas as religiões que eu conheço usam método de promover os valores básicos dos indivíduos. E para fazer isso, então elas utilizam métodos diferentes, formas diferentes de visão como Deus, o criador e diferentes conceitos e diferentes abordagens, mas o objetivo é o mesmo. Nós estamos falando a respeito da humanidade. Então, é possível que dentre os sete bilhões de pessoas, um bilhão de pessoas que não tem nenhuma religião, mas eles também são irmãos e irmãs. Nós também temos que nos concentrar com seriedade no bem estar dessas pessoas. Então o método precisa incluir esses valores internos. Eu acho que se nós usarmos a palavra meditação eles podem pensar que esse é um método religioso. É bem compreensível. Então eu simplesmente diria consciência. Consciência de uma realidade mais profunda. E então treinamento da mente. Eu realmente acho que meditação, Vipashyana, Shamatha, o objetivo dessas práticas é conduzir ao Nirvana. São objetivos para além desta vida. Mas o nosso assunto aqui é como criar mais felicidade nesta mesma vida e a felicidade tem muita relação com a mente, não apenas com o corpo físico que pode representar dificuldades, mas é preciso que a mente esteja muito pacífica, muito feliz.

Eu sempre comento que uma vez conheci na Espanha um monge católico. Ele passou cinco anos num eremitério nas montanhas, vivendo como um ermitão. Poucas refeições quentes, só pão e chá. Quando o encontrei então eu perguntei: “eu soube que você passou cinco anos na montanha levando uma vida de ermitão, sem nenhuma modernidade. Que tipo de prática você fazia?” e ele respondeu: “meditava sobre o amor”. Quando ele me respondeu isso eu notei alguma coisa especial no olhar dele. Então isso é muito significativo.

Eu também conheci um monge tibetano que passou 18 anos (ou mais) numa prisão chinesa. Ele passou por muitas dificuldades. Nos anos 80 ele teve uma permissão dos chineses para ir pra Índia e, como nós nos conhecíamos, tivemos um encontro informal. Então ele comentou que durante esses 18 anos algumas ocasiões ele realmente enfrentou um perigo e eu pensei bom talvez tenha sido um perigo da própria vida, e eu perguntei: “mas que tipo de perigo?” e ele respondeu: “o perigo de perder a compaixão pelos perpetradores, pelos guardas da polícia chinesa”. Ele considerava a prática da compaixão muito, muito importante. Então perder isso, pra ele, era realmente um perigo muito grave. Eu acho que hoje em dia ele tem 98 anos ou algo assim. Então ele tem algumas dificuldades físicas, mas ele está sempre sorrindo. É uma pessoa muito, muito feliz. Eu acho que se naqueles momentos ele tivesse perdido a compaixão, ele não estaria vivo à esta altura, porque ele teria sofrido mais frustração, mais raiva. Esses são exemplos vivos! Então, não faz diferença se são budistas ou se são cristãos.

Da mesma forma alguns amigos meus que são muçulmanos são profunda e verdadeiramente dedicados. Eles me dizem que o praticante verdadeiro do Islã deve sentir amor por todas as criaturas, por toda criação de Alah. Isso é maravilhoso. O problema é que nós não praticamos de forma muito séria essas coisas, inclusive os budistas tibetanos. Algumas vezes eles se perdem na política dos lamas, mas a gente deveria acrescentar essa palavra no dicionário “política dos lamas”. Então eles se preocupam com nomes, com números de seguidores, um monte de competição. As pessoas supostamente são praticantes, mas não são sérios o suficiente, sinceros o suficiente. Então ainda há espaço para algumas emoções negativas. Eu acho que os seguidores e os praticantes de todas as tradições deveriam ser sérios com respeito a prática e aí todos teriam potencial equivalente.

Então eu acho que a própria palavra “meditação” tem uma conexão muito grande com a tradição indiana antiga. Me disseram que nas ilhas gregas eles ainda praticam a meditação, numa tradição cristã antiga, mas ainda assim eu acho que essa palavra “meditação” vem da tradição indiana antiga. Então talvez seja melhor usar a palavra consciência ou prestar mais atenção, ou treinamento da mente, algo assim.”

Dan Haris pergunta então qual seria a melhor idade para começar a aprender meditação. E o Dalai Lama responde:

“Claro que as crianças são seres humanos e o sete bilhões de seres humanos nascem com o mesmo potencial. Nós precisamos nutrir isso socialmente, demonstrando um amor, um afeto incondicional, demonstrando um amor incondicional pra criança. Eu sempre digo para as pessoas, compartilho as experiências que eu escutei dos estudiosos. A proximidade da mãe, o toque da mãe com a criança é essencial… passar mais tempo com a criança. A amamentação é igualmente essencial. Eu acho que essa é a forma de verdadeiramente nutrir essa natureza humana básica, essa qualidade bondosa humana básica, essa qualidade biologicamente básica e aí por fim a educação precisa incluir os valores internos, baseando-se estritamente nos achados científicos, nos dados de pesquisas cientificas e não nas filosofias e nos livros antigos, nas escrituras. Eu acho que durante a minha vida vai ser difícil de ver isso acontecendo, mas na geração dos seus filhos, essa é uma possibilidade real – ver um mundo melhor, mais compassivo, mais pacífico, por meio da paz interna.

Sem paz interna é impossível criar paz no mundo. A paz no mundo não vai ser alcançada por meio das armas, pela raiva, pelo ódio, pela falta de confiança. A paz no mundo só pode ser alcançada por meio da bondade amorosa, pelo respeito à vida das outras pessoas – cada um se preocupando seriamente com o bem estar do outro com base nessa noção de uma única humanidade, de sete bilhões de pessoas. Eu acho que isso é algo realista.

                     A ultima pergunta feita pela platéia para o Dalai Lama é como lidar com pessoas como as do ISIS que matam pessoas de uma forma  selvagem, fazem ataques violentos, como lidar com essas pessoas? Uma outra pergunta associada é “você considera que algum caso em que a violência possa ser justificada ou legitima”?

                     E a resposta do Dalai Lama: 

Essa é realmente uma pergunta bem difícil. Eu entendo que respostas duras, ásperas, partindo da compaixão, partindo da preocupação com o outro, algumas vezes são possíveis, mas eu acho que é sempre melhor evitar a violência. Porque a violência, uma vez iniciada, independente de ser por uma boa motivação ou não, ela acaba gerando mais violência. Ela facilmente sai do controle. Então é sempre melhor evitar a violência. A melhor forma é sempre o diálogo, a conversa.

Esses seres do ISIS, esses terroristas, eles são seres humanos e eles também têm dentro de si a semente da compaixão. Então, em respeito a essa semente, é preciso dialogar. Eu sempre digo que precisamos fazer do século XXI o século da paz, sendo que paz não significa que não haverá nenhum potencial de conflito. O potencial para o conflito vai estar sempre presente e então, frente qualquer potencial de conflito, é preciso estabelecer o diálogo. Portanto, o século XXI deve ser o século do diálogo. Esse é o único jeito.

Na minha vida, eu testemunhei a segunda guerra mundial, a guerra civil da China, a guerra na Coreia e, com 81 anos, ainda vejo muita violência, muito conflito. Eu acho que se isso continuar, esse século vai continuar sendo um século de derramamento de sangue. Por isso que nós precisamos fazer o esforço para fazer com que esse século seja o século da paz. Este século precisa ser o século da paz, precisa ser o século da não violência, por meio do esforço e não de orações. Acho que há mais de mil anos os meus irmãos e irmãs tibetanos rezam, rezam, rezam, mas eu acho que os resultados dessas preces não chegaram.

Eu sempre brinco que se nós encontrássemos com Jesus Cristo ou com Buda e se olhássemos pra eles e disséssemos: “por favor tragam paz para o mundo”, eles nos responderiam: “quem foi que criou esse problema?” Se Deus tivesse criado esse problema então poderíamos chegar para Ele e pedir “por favor traga paz pro mundo”. Mas nós é que começamos esse problema, então nós é que temos a responsabilidade de resolvê-los. Nós precisamos fazer esse esforço. com uma motivação sincera, séria e com uma clara compreensão da realidade sobre consequências a longo prazo e a curto prazo e além disso, com orações. Eu acho que isso é realista.”

                     Muitos e muitos e muitos aplausos!

 

 

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Na tarde de ontem, quem teve a sorte de estar em casa ou ao menos de ter a possibilidade de passar 1h30 conectado à internet, pôde desfrutar do painel “The World We Make – Well Being in 2030”, encontro realizado pelo Mind and Life Institute, que ao menos anualmente aproxima cientistas de Sua Santidade o Dalai Lama. O encontro foi transmitido ao vivo, diretamente da Universidade de Wisconsin, no dia 9/março/2016 mas, até o momento em que estou escrevendo este post, infelizmente a gravação do evento não está disponível.

O que eu gostaria de registrar aqui foi a participação de Richard Davidson – neurocientista brilhante, apontado como um dos homens mais influentes do mundo pela Revista Time, que dirige o Center For Healthy Minds, na Universidade de Wisconsin.

Nesse próprio evento, Richard Davidson lembrou como o Dalai Lama, se não me engano, há mais de 20 anos direcionou a carreira dele como pesquisador perguntando se não seria possível estudar os aspectos positivos da mente (além das doenças) e como desenvolver estratégias para intensificar a saúde mental e o bem-estar. Desde então, esse tem sido o propósito de sua vida como pesquisador.

E as notícias que ele nos deu em sua fala nesse painel são excelentes: o bem-estar pode ser treinado – é uma habilidade, e não apenas algo que nos acontece ou não.

Richard Davidson apresentou ao Dalai Lama e aos demais participantes do painel o que ele chama de quatro componentes do bem-estar, identificados e estudados pela neurociência. Existem evidências de que o treinamento mental nessas habilidades pode fazer uma grande diferença na experiência bem-estar das pessoas e até mesmo criar novos circuitos neurais, remodelando as respectivas regiões do cérebro.

Esses componentes do bem-estar são:

Resiliência

A rapidez com que somos capazes de nos recuperar das adversidades. Uma maior resiliência pode resultar em menos experiências negativas e também proteger contra distúrbios mentais.

 

Perspectiva positiva

Aqui Richard Davidson citou a visão que o próprio Dalai Lama sustenta com respeito à bondade inata dos seres humanos, buscando enxergar sementes de gentileza e compaixão nas pessoas.

 

Atenção

Richard Davidson destacou aqui o estudo realizado por Dan Gilbert, da Universidade de Harvard em 2010, que demonstrou que em cerca de 47% do tempo de vigília as mentes das pessoas estão vagueando e isso está associado à experiência de infelicidade.

Os 2.250 participantes desse estudo recebiam um SMS com três perguntas:
1 – como você está se sentindo neste momento? escala de 0 a 100
2 – o que você está fazendo? lista com 22 atividades
3 – você está pensando no que está fazendo, em outras palavras, você está presente?

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47% das respostas eram que estavam distraídas e estar distraída correspondia a um grau menor de bem-estar, independente da tarefa. O resultado do estudo foi “a mente humana é uma mente que vagueia e uma mente que vagueia é uma mente infeliz”.

Neste momento, Davidson também citou um trecho da obra de William James – The Principles of Psychology – que o Prof Alan Wallace também cita frequentemente:

 

A faculdade de trazer uma mente que vagueia de volta, vez após vez, é a raiz do julgamento, do caráter e da vontade. Ninguém pode ser mestre de si mesmo sem atenção. Uma educação que melhore essa faculdade deve ser considerada a educação par excellence.”

 

 

 

 

 

Generosidade

As evidências citadas aqui mostram que atos de generosidade têm um efeito duplo: trazem felicidade para quem é generoso e para quem é beneficiado.
O Dalai Lama comentou dizendo que sempre recomenda que se a pessoa quiser ser egoísta, que seja um egoísta inteligente. A melhor forma de se dar bem é fazendo os outros felizes.

 

Fica a qui a expressão de um desejo e uma promessa: espero que o vídeo desse encontro fique disponível – esse é o desejo. E a promessa é de legendar ou ao menos transcrever a fala de Sua Santidade o Dalai Lama, que seguramente foi a parte mais importante mas que eu, infelizmente, não consegui registrar na íntegra.

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Transcrevo aqui uma excelente reflexão do Prof. Alan Wallace oferecida em Londres, em abril de 2014.

“Para explorar em profundidade a busca pela felicidade genuína, pela felicidade autêntica, é preciso desviar a atenção da busca pela felicidade hedônica. Há uma analogia que funciona para mim. Há cerca de um século, no Reino Unido, nos Estados Unidos e em alguns outros países, as cidades enfrentavam um grande problema decorrente da poluição causada uso do carvão. Em Londres, por exemplo, este era um enorme problema.

Agora imagine hipoteticamente uma comunidade cuja única fonte de energia provém de uma usina de carvão. E é claro que essa população sofre de diversas doenças respiratórias – tosse intensa, câncer, crianças morrem devido a essas doenças e assim por diante. As pessoas convivem com o problema, mas muito mal. E um dia, alguém que vive nesse lugar ouve a respeito da captação de luz solar para gerar energia. E isso parece ser muito bom! E começam então a investir pesadamente em muitos e muitos paineis solares. Eles instalam os paineis e começam a tentar captar a luz solar. Mas o ar é tão contaminado por essa densa fumaça negra que os paineis solares simplesmente não funcionam. Então, o que eles precisam fazer? Não há nada a ser feito da noite pro dia. Eles precisam ir gradualmente desativando a usina de carvão para reduzir a contaminação do ar e para que a luz do sol possa começar a atingir os paineis. Após algum tempo, seguindo esse processo gradual, a usina de carvão poderá ser completamente desativada e os paineis poderão funcionar plenamente.

A analogia diz respeito à popularização da meditação, especialmente a chamada “mindful revolution“, entre outras. É uma boa coisa, na medida que essas técnicas aliviam o sofrimento, ajudam a tratar dores crônicas, manejar o estresse, etc. Isso é maravilhoso. Mas uma prática meditativa descontextualizada, seja ela mindfulness, conforme descrita pelos psicólogos, ou seja shamatha, vipassana ou até a meditação transcedental, ainda que sejam bons métodos, se não implicar uma transformação na forma de ver a realidade – “não mexa nas minhas premissas, nas minhas crenças, mas estou muito estressado, sofro muita pressão, me dê uma meditação, uma medicação (como se a diferença fosse apenas uma consoante)” – essa prática será na verdade apenas um band-aid. Você pode fazer isso. Você pode meditar sem transformar sua visão de mundo, suas premissas, sem nunca desafiar seus valores, suas prioridades. Você pode também meditar durante 15, 20 minutos em meio a um estilo vida frenético, sem modificá-lo em nada. Você pode fazer isso! Não há nenhuma lei contra isso. Mas isso não é uma revolução – isso é um band-aid. E eu não estou falando sobre práticas que outras pessoas ensinam – estou falando sobre as práticas que eu mesmo ensino. São métodos sensacionais, mas se eles se resumirem a isso, sem transformar seus valores, sua visão de mundo e o seu estilo de vida – “estou muito estressado, me dê alguma coisa que não seja um medicamento” – está bem, mas é isso que você terá: apenas algo para substituir uma droga. Nesse caso, você não terá desligado a sua usina de carvão – você terá ligado os paineis solares e conseguirá captar apenas alguns fracos raios de sol.

A busca da felicidade implica questionar, explorar, desafiar as nossas próprias crenças. Não as crenças de outras pessoas – isso é fácil! Examinar, analisar, desafiar as nossas próprias premissas, a nossa própria visão de mundo – é isso que permitirá que uma verdadeira revolução aconteça. Isso significa não estarmos mais focados exclusivamente na busca incessante por prazeres hedônicos, durante cada momento das nossas vidas. Só assim será possível gradualmente desativar a usina de carvão.

Muitas vezes as coisas mais óbvias são as mais difíceis de enxergar. É bom que olhemos por vários ângulos diferentes, que ouçamos das mais diversas formas, usufruindo do talento generoso de pessoas que buscam compartilhar suas experiências e visões sobre, afinal, como podemos ser mais felizes!

Aqui está uma seleção de conferências de pessoas assim! Que em 2014 nós possamos nos alegrar com as coisas mais simples da vida!

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(Clique na imagem de Matthieu Ricard para assistir aos vídeos, quase todos com legendas em português)

1. Dan Gilbert –  O que nos faz felizes?

Dan Gilbert, autor de “Stumbling on Happiness” (Tropeçando na Felicidade), contesta a idéia de que seremos infelizes se não tivermos o que queremos. Nosso “sistema imunológico psicológico” permite que sejamos felizes mesmo quando as coisas não são como planejamos.

2. Malcolm Gladwell sobre Molho de Espaguete

Autor de Tipping Point, Malcolm Gladwell detalha a busca pelo molho de espaguete perfeito pela indústria alimentícia — e faz uma discussão mais ampla sobre a natureza da escolha e da felicidade.

3. ihaly Csikszentmihalyi: Flow, o segredo da felicidade

Csikszentmihalyi pergunta, “O que faz a vida valer a pena?”. Observando que o dinheiro não traz felicidade, ele analisa aqueles que encontram prazer e satisfação duradoura em atividades que levam ao estado de “Flow”.

4. Michael Norton – Como comprar a felicidade?

TEDxCambridge, Michael Norton compartilha uma pesquisa fascinante sobre como o dinheiro pode, de verdade, comprar felicidade — quando você não gasta consigo mesmo. Fique atento aos dados surpreendentes sobre as muitas maneiras como o gasto prossocial pode beneficiar você, seu trabalho e (claro) outras pessoas.

5. Barry Schwartz sobre o paradoxo da escolha

O psicólogo Barry Schwartz mira em um dos dogmas centrais da sociedade ocidental: liberdade de escolha. Schwartz estima que a escolha nos tornou menos livres e mais paralisados, mais insatisfeitos em vez de mais felizes.

6. David Steindl-Rast: Quer ser feliz? Seja grato (legenda em espanhol)

A única coisa que todos os seres humanos temos em comum é que cada um de nós quer ser feliz, diz o Irmão David Steindl-Rast, um monge e erudito interreligioso. E a felicidade, sugere, nasce da gratidão.

7. Graham Hill: Menos coisas, mais felicidade

Escritor e designer Graham Hill pergunta: Será que ter menos coisas, em um espaço menor, leva a mais felicidade? Ele argumenta em favor de ocupar menos espaço e coloca três regras para que você possa editar sua vida.

8. Matthieu Ricard: sobre os hábitos da felicidade

O que é a felicidade e como podemos conquistá-la? Matthieu Ricard, bioquímico que se tornou monge Budista, afirma que podemos treinar nossa mente nos hábitos do bem-estar para gerar um verdadeiro sentimento de serenidade e realização.

9.  Daniel Kahneman: O enigma da experiência x memória

Os exemplos que vão desde férias até colonoscopias, o vencedor do prêmio Nobel e fundador da economia comportamental Daniel Kahneman revela como nossas duas individualidades, o “eu da experiência” e o “eu das lembranças” percebem a felicidade de forma diferente. Essa revelação tem implicações profundas na economia, na política pública — e em nossas consciências.

10. Ron Gutman: O poder oculto do sorriso

Ron Gutman revê uma série de estudos sobre o sorriso e revela resultados surpreendentes. Você sabia que o seu sorriso pode prever quanto tempo você irá viver – e que um simples sorriso possui um efeito mensurável do seu bem estar? Prepare-se para mexer alguns músculos faciais enquanto você aprende mais sobre esse comportamento evolucionário contagiante.

A vida dele é a busca de uma eterna busca.
É o futuro que cria o seu presente.
Tudo é uma cadeia interminável de desejo.

Robert Frost

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~ Sharon Salzberg – MInd and Life Institute

Há muito tempo penso que neste trecho do poema, “Escapista – Nunca”, Robert Frost capta muito do que as tradições contemplativas descrevem como desejo, uma fonte de grande sofrimento. Desejo é diferente de força motivadora, intencionalidade e determinação; no desejo há um elemento de fixação sobre o que não se tem, em detrimento de apreciar e de ser grato por aquilo que se tem. É uma busca que nunca termina, que sempre segue pensando na próxima fonte potencial de alegria, enquanto a sensação de suficiência ou de satisfação no momento presente nos escapa.

Veja onde nós estamos buscando pela felicidade: naquilo que ainda não está aqui.

No poema, há também pistas sobre as maneiras pelas quais podemos confundir prazeres temporários com a felicidade mais profunda que está à nossa disposição.

Existe uma ansiedade na felicidade que se baseia exclusivamente na experiência do prazer (por ser tão agradável), porque junto com essa dependência vem a necessidade de o prazer nunca mudar. Nós provavelmente já experimentamos o cansaço de passar de um objeto a outro, de experiência em experiência, necessitando de cada vez mais intensidade, sem estímulo suficiente para nos sentirmos vivos enfim, e que precisamos encontrá-lo… em algum lugar. Esta é a espiral viciante: não estarmos atentos o suficiente para nos conectarmos fortemente com o que está acontecendo agora, e tentando evitar o inevitável – a insatisfação provocada por focar mais e mais o desejo.

Então, como vamos nos libertar do hábito de desejar?

Há aquele exemplo do sapo que está em um pequeno lago e é informado sobre a existência do oceano. O sapo não acredita no que lhe é dito, por estar tanto tempo submerso em seu pequeno lago, tão familiar e tão perdido nesse mundo circunscrito. O sapo não pode sequer imaginar outras possibilidades. Para explorar o mundo além da fixação do desejo, precisamos ampliar nossa imaginação, o nosso sentido de aspiração, do que é possível para nós, e explorar nossas próprias mentes.

Podemos estabelecer uma relação diferente com a nossa própria insatisfação, para que quando ela aparecer nós possamos olhar para ela de uma forma mais saudável, em vez de tentar evitá-la ou encobri-la. Podemos nos lembrar de apreciar o que está aqui, o que temos, e nos lembrar de que tudo muda inevitavelmente. Isso tudo diz respeito à meditação, que é o cultivo de uma qualidade de consciência que muda nossa relação a nossa experiência, seja ela qual for neste momento. Se sentimos que a experiência é agradável, aprendemos a estar com ela de forma mais plena, com menos distração, e deixando-a mudar. Se achamos que a experiência neste momento é dolorosa, aprendemos enfrentá-la de forma mais honesta e com mais compaixão, em vez de tentar fazer qualquer coisa para fugir dela. Se a experiência no momento presente nos parece ser neutra, nem agradável e nem desagradável, simplesmente rotineira ou comum, podemos aprender a quebrar o ciclo da busca interminável por mais intensidade, e nos conectar mais plenamente ao que está aqui, neste momento.

É assim que escapamos da prisão do desejo.

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Sharon Salzberg é co-fundadora da Insight Meditation Society (IMS), em Barre, Massachusetts. Ela estuda a meditação desde 1971, orientando retiros em todo o mundo desde 1974. Seu livro mais recente, best-seller do The New York Times, é Real Happiness: The Power of Meditation: A 28-Day Program, publicado pela Workman Publishing. Ela é um colaboradora regular de The Huffington Post e é também o autora de vários outros livros, incluindo The Force of Kindness (2005), Faith: Trusting Your Own Deepest Experience (2002), and Lovingkindness: The Revolutionary Art of Happiness (1995). 

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B. Alan Wallace

“A busca pela felicidade genuína e pela superação do sofrimento não é uma busca trivial. Não é uma questão de sorte. Tem a ver com a própria natureza da realidade. Examine com profundidade as causas que o levaram à delusão no passado e que estabeleceram a base da ignorância.”