Arquivos para Evidências Científicas

Wendy Hasenkamp. Mind and Life Institute

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Você tem familiares, amigos, colegas que dizem que não conseguem meditar?

A neurocientista residente do Mind and Life Institute, Wendy Hasenkamp, explora os equívocos populares sobre meditação e as razões para se continuar tentando.

Quando eu explico para alguém que estou envolvida em pesquisa sobre meditação, não é incomum ouvir: “Ah, meditação – eu tentei. Mas não consigo meditar.”

Essa resposta me traz um misto de emoções com partes iguais de tristeza e frustração, junto com uma grande dose de motivação.

Tristeza porque as pessoas tiveram experiências com a meditação em uma perspectiva negativa e a associaram a uma sensação de ter fracassado. Frustração porque essa associação sempre vem de um mau entendimento cultural sobre o que é a meditação (e o que deve se sentir quando pratica). E motivação: para mudar essa percepção equivocada, para que aqueles que estiverem interessados possam experimentar os benefícios da prática da meditação.

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David DeSteno

A meditação está rapidamente se tornando uma ferramenta da moda para melhorar a mente. Com a crescente evidência científica de que a prática pode aumentar a criatividade, a memória e os escores em testes de inteligência, o interesse por seus benefícios práticos está também crescendo. Uma série de programas de treinamento baseados na atenção plena (mindfulness), como o desenvolvido pelo engenheiro Chade-Meng Tan na empresa Google, e conferências como a Wisdom 2.0 para líderes de negócios e da área de tecnologia, prometem aos participantes uma visão sobre como a meditação pode ser usada para aumentar o desempenho individual, a liderança e a produtividade.

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Essas questões estavam no coração de um estudo recente liderado por Paul Condon, um estudante de pós-graduação em psicologia social, do Dr. David DeSteno na Northeastern University. O experimento ofereceu aos participantes oito semanas de instruções de meditação. Em encontros de duas horas por semana, para a metade dos participantes foram ensinadas técnicas para a prática da atenção plena, e a outra metade foi treinada em compaixão. Um grupo controle de pessoas que também estavam interessadas ​​em aprender meditação receberam treinamento depois que o estudo terminou.

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Shamatha Project

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Centrar-se no presente, ao invés de deixar a mente vagar, pode ajudar baixar os níveis de cortisol, o chamado hormônio do estresse, como sugere novos resultados do Projeto Shamatha da Universidade da Califórnia, Davis.

A capacidade de concentrar os recursos mentais na experiência imediata é um aspecto da atenção plena (mindfulness), que pode ser melhorada por meio do treinamento de meditação.

“Este é o primeiro estudo que demonstrou uma relação direta entre o cortisol no repouso e escores de qualquer tipo de escala de atenção plena”, disse Tonya Jacobs, pesquisadora pós-doutorada na Universidade da Califórnia, UC Davis Center for Mind and Brain, e autora principal de um artigo descrevendo o trabalho, publicado esta semana na revista Health Psychology.

Altos níveis de cortisol, um hormônio produzido pela glândula suprarrenal, estão associados ao estresse físico ou emocional. A liberação prolongada do hormônio contribui para uma ampla gama de efeitos adversos sobre uma série de sistemas fisiológicos.

As novas descobertas são os mais recentes resultados do Projeto Shamatha, um abrangente estudo de longo prazo e controlado sobre os efeitos do treinamento de meditação sobre a mente e o corpo.

Liderados por Clifford Saron, pesquisador associado da UC Davis Center for Mind and Brain, o Projeto Shamatha tem atraído a atenção de cientistas e estudiosos budistas, incluindo o Dalai Lama, que aprovou o projeto.

No novo estudo, Jacobs, Saron e seus colegas usaram um questionário para medir aspectos da atenção plena de um grupo de voluntários, antes e depois de um intenso retiro de meditação de três meses. Eles também mediram os níveis de cortisol na saliva dos voluntários.

Durante o retiro, o estudioso e professor de meditação B. Alan Wallace, do Santa Barbara Institute for Consciousness Studies, treinou os participantes em tais habilidades de atenção com técnicas como atenção plena à respiração, observação de eventos mentais, e observação da natureza da consciência. Os participantes também praticaram o cultivo de estados mentais positivos, incluindo bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade.

Na análise individual, houve uma correlação entre uma alta pontuação para a atenção plena e baixos níveis de cortisol, antes e depois do retiro. Indivíduos cujos escores de atenção plena aumentaram após o retiro tiveram uma diminuição nos níveis de cortisol.

“Quanto mais a pessoa relatava ter mantido foco de seus recursos cognitivos na experiência sensorial e nas tarefa imediatas, menores os níveis de cortisol no repouso”, disse Jacobs.

A pesquisa não mostrou uma relação causa-efeito direta, salientou Jacobs. Na verdade, observou-se que o efeito poderia se dar de qualquer maneira – a redução dos níveis de cortisol pode levar a uma melhora nos escores de atenção plena, ao invés do contrário. Os escores no questionário de atenção plena aumentaram do pré para o pós-retiro, enquanto os níveis de cortisol em geral não se alteraram.

Segundo Jacobs, o treinamento da mente para se concentrar na experiência imediata pode reduzir a propensão a ruminar sobre o passado ou se preocupar com o futuro, processos de pensamento que têm sido associados à liberação de cortisol.

“A idéia de que podemos treinar as nossas mentes de forma a promover ​​hábitos mentais saudáveis e que esses hábitos podem se refletir nas relações corpo-mente não é novidade; tem sido observada há milhares de anos, em várias culturas e ideologias”, disse Jacobs. “No entanto, essa idéia está apenas começando a ser integrada à medicina ocidental conforme as evidências objetivas se acumulam. Felizmente, estudos como este irão contribuir para esse esforço.”

Saron observou que, neste estudo, os autores utilizaram “atenção plena” para se referir a comportamentos que se refletem em uma escala de atenção plena particular, que foi a medida usada no estudo.

“A escala mediu propensão dos participantes a soltar os pensamentos angustiantes e levar a atenção a diferentes domínios sensoriais, tarefas diárias, e os conteúdos atuais de suas mentes. Contudo, esta escala pode refletir apenas um subconjunto de qualidades que compõem a qualidade mais elevada da atenção plena, tal como é concebido por várias tradições contemplativas “, disse ela.

Estudos anteriores do Projeto Shamatha mostraram que o retiro de meditação teve efeitos positivos sobre a percepção visual, atenção sustentada, bem-estar sócio-emocional, atividade cerebral em repouso e sobre a atividade da telomerase, uma enzima importante para a saúde celular a longo prazo.

http://www.news.ucdavis.edu/search/news_detail.lasso?id=10538

Estudo por imagem revela que diferentes formas de meditação podem ter efeitos variados sobre a estrutura cerebral 

Um novo estudo demonstrou que a participação em um programa de meditação de 8 semanas pode ter efeitos mensuráveis ​​do funcionamento do cérebro, mesmo quando não se está ativamente meditando. Na edição de novembro de Frontiers in Human Neuroscience, pesquisadores do Massachusetts General Hospital (MGH), Boston University (BU), e diversos outros centros de pesquisa também constataram diferenças desses efeitos com base no tipo específico de meditação praticada.

“Os dois tipos diferentes de treinamento de meditação que os participantes do nosso estudo concluíram resultou em algumas diferenças na resposta da amígdala – uma parte do cérebro conhecida há décadas por ser importante para a emoção – a imagens com conteúdo emocional”, diz Gaëlle Desbordes, PhD, pesquisador do Centro de Imagens Biomédicas A. Athinoula Martinos no MGH e no Centro de BU para Neurociência Computacional e Tecnologia Neural, autor do artigo. “Esta é a primeira vez que se demonstrou que o treinamento de meditação afeta o processamento emocional no cérebro, fora de um estado meditativo.”

Vários estudos anteriores sustentaram a hipótese de que o treinamento de meditação melhora a regulação emocional dos praticantes. Embora os estudos de neuroimagem tenham revelado que a meditação parecia diminuir a ativação da amígdala – uma estrutura na base do cérebro que é conhecida por ter um papel no processamento da memória e da emoção – essas alterações foram observadas apenas enquanto os participantes do estudo estavam praticando a meditação. Este estudo foi desenhado para testar a hipótese de que o treinamento de meditação também pode produzir uma redução generalizada na resposta da amígdala a estímulos emocionais, mensuráveis ​​por ressonância magnética funcional (fMRI).

Os participantes foram incluídos em uma investigação mais ampla sobre os efeitos de duas formas de meditação, na Universidade Emory, em Atlanta. Adultos saudáveis, sem experiência meditativa participaram de ciclos de oito semanas em meditação de atenção plena (mindfulness) – a forma mais comumente estudada, que consiste em desenvolver a atenção e a consciência da respiração, pensamentos e emoções – e meditação da compaixão (loving kindness), uma forma menos estudada que inclui métodos concebidos para desenvolver bondade amorosa e a compaixão por si mesmo e com relação aos outros. Um grupo controle participou de um curso de educação em saúde de 8 semanas.

Dentro de um período de três semanas antes do início e três semanas após a conclusão do treinamento, 12 participantes de cada grupo foram para Boston para os exames de fMRI do cérebro nas instalações state-of-the-art do Centro de Imagens Martinos. Os scans do cérebro foram realizados enquanto os voluntários observavam uma série de 216 imagens diferentes – 108 por sessão – de pessoas em situações com um conteúdo emocional positivo, negativo ou neutro. A meditação não foi mencionada nas instruções prévias aos exames de imagem, e os investigadores confirmaram mais tarde que os voluntários não haviam meditado durante os exames. Os participantes também foram avaliados quanto a sintomas de depressão e ansiedade, antes e depois dos programas de treinamento.

Created with GIMP No grupo da atenção plena, os exames após o  treinamento do cérebro mostraram uma diminuição na ativação na amígdala direita em resposta a todas as imagens, confirmando a hipótese de que a meditação pode melhorar a estabilidade emocional e a resposta ao estresse. No grupo de meditação da compaixão, a atividade da amígdala direita também diminuiu em resposta a imagens positivas ou neutras. Mas entre aqueles que relataram praticar a meditação da compaixão com mais frequência fora das sessões de treinamento, a atividade da amígdala direita tendeu a aumentar em resposta a imagens negativas – que mostravam alguma forma de sofrimento humano. Nenhuma mudança significativa foi observada no grupo controle ou na amígdala esquerda dos participantes do estudo.

“Nós achamos que essas duas formas de meditação cultivam diferentes aspectos da mente”, explica Desbordes. “Uma vez que a meditação da compaixão se destina a intensificar os sentimentos de compaixão, faz sentido o aumento da resposta da  amígdala frente ao sofrimento de outras pessoas. O aumento da ativação da amígdala também foi correlacionada à diminuição dos escores de depressão no grupo de meditação da compaixão, o que sugere que ter mais compaixão para com os outros pode também ser benéfico para si mesmo. De forma geral, estes resultados são consistentes com a hipótese abrangente de que a meditação pode resultar em mudanças benéficas e duradouras na função cerebral, especialmente na área de processamento emocional.”

Eric Schwartz, PhD, do Departamento de Engenharia Elétrica e da Computação e do Centro para Neurociência Computacional e de Tecnologia Neural da BU, é autor senior da Frontiers in Human Neuroscience.  Os co-autores são Lobsang T. Negi, PhD, e Thaddeus Pace, PhD, Universidade Emory; Alan Wallace, PhD, Instituto Santa Barbara Institute para Estudos da Consciência; e Charles Raison, MD, Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona.  

http://www.massgeneral.org/about/pressrelease.aspx?id=1520