Arquivos para Dalai Lama

Na semana passada, no post O bem-estar é uma habilidade que pode ser treinada, fiz uma promessa: traduzir a fala de Sua Santidade o Dalai Lama quando o vídeo fosse disponibilizado. Imediatamente meu amigo querido Gustavo Gitti me enviou o link e, agora, estou cumprindo a promessa, com a ajuda luxuosa da minha maior parceira, minha irmã, Audrey Ruggiero Pilli. Meu desejo mesmo era legendar o vídeo, mas ele está protegido por direitos autorais, infelizmente.

Mas aqui está a transcrição completa dessa fala sensacional de Sua Santidade o Dalai Lama, no evento organizado pela Universidade de Wisconsin, especialmente por Richard Davidson, diretor do Center For Healthy Minds.

A participação do Dalai Lama no encontro “The World We Make – Well Being in 2030“, começa após uma pergunta de Soma Stout, Executiva do “Institute for Healthcare Improvement” relacionada a equidade:

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“Como é possível sermos felizes se todos os seres não forem felizes?”

E segue então a fala do Dalai Lama, na íntegra:

“Primeiramente o que eu sempre digo para as pessoas é que nós somos animais sociais. Nós precisamos desse senso de comunidade, de interdependência, biologicamente, por uma questão de sobrevivência. Mas às vezes eu acho que o autocentramento, esse senso de “eu, eu, eu” se torna dominante. Mas basicamente, nós como indivíduos, nossa vida, dependem do senso de comunidade, depende de todos os outros seres. No passado, as pessoas eram mais ou menos autossuficientes como, por exemplo, os nativos americanos. Eles não precisavam interagir com os outros continentes. Mas hoje em dia a situação não é a mesma – existe hoje uma forte interdependência. Especialmente a economia é fortemente interdependente. Até mesmo a questão ambiental está nos dizendo que nós, seres humanos, deveríamos trabalhar juntos – como uma família, como uma unidade. É isso que a questão climática está nos dizendo. Então o senso de comunidade, o senso de sermos animais sociais, neste momento é muito relevante. Biologicamente nós temos potencial pra isso, mas a chave é a educação. A educação pode nos trazer mais consciência disso, dessa realidade.”

Aí então o Dalai Lama pega um boné que ele ganhou do Richard Davidson onde está escrito: “Mude sua mente, mude o mundo” e ele diz:

“Isso é muito bom. Nesse caso o mundo pode significar a combinação de todos os seres humanos. Primeiramente, então, essa mudança deveria começar no âmbito individual, mas se a mudança não acontecer nos indivíduos, se não houver um esforço, a mudança que se espera no mundo não vai acontecer. Isso é uma séria ignorância da causalidade, da lei da causalidade. A humanidade é uma combinação de indivíduos e, portanto a mudança precisa começar por cada indivíduo.

Eu sempre reflito assim quando penso em um problema. Quando eu penso em um problema imenso, eu penso então que mais seriamente, mais realisticamente, cada indivíduo precisa fazer um esforço. Se uma pessoa decide fazer algum esforço em direção da solução do problema, o esforço desse indivíduo pode impactar outro indivíduo e então cem pessoas, mil pessoas, cem mil pessoas, dez milhões de pessoas. É assim que a mudança acontece. E novamente eu acho que a chave é a consciência.

Eu acho que a forma de pensar, a forma de viver de muitos de nós, não é realista. Existe uma lacuna enorme entre a nossa percepção e a realidade como ela é. A educação precisa fazer essa aproximação – entre a nossa percepção e a realidade. Mas a educação hoje em dia apenas fala, pensa em valores externos. Os valores internos são quase que completamente negligenciados. Eu também posso dizer que existe uma ignorância com respeito ao nosso mundo interno. E assim a gente acaba não prestando atenção, achando que o mundo interno é do jeito que é. Não há como mudá-lo sem ser por meio da conscientização ou por meio da educação. Mas é preciso começar a mudar, começar a mostrar que há uma possibilidade de mudar, até mesmo do ponto de vista biológico, no cérebro. Isso pode trazer um imenso beneficio pra saúde. Então nossa mente pode se tornar mais pacífica. Não uma paz como um tipo de entorpecimento, de torpor, mas uma paz completamente consciente, alerta aos riscos e a todas as coisas. E assim a inteligência combinada com uma força interna, combinada a uma autoconfiança baseada na verdade, e isso combinado a um coração compassivo, nos permite olhar para os outros como irmãos e irmãs. Nós precisamos viver em conjunto; o seu futuro depende do futuro do outro, o futuro do outro também depende do seu futuro, em alguma medida.

A felicidade humana é um objetivo comum, é um interesse comum, mas é claro que nós somos egoístas. O egoísmo é chave para sobrevivência. Sem o egoísmo não é possível sobreviver. Então o egoísmo é bom. Mas há muitos anos eu venho dizendo que o egoísmo precisa ser um egoísmo esperto, inteligente, sábio ao invés de um egoísmo tolo. O problema é que o egoísmo tolo é assim: isso é meu, meu, meu, meu, e para eu ganhar alguma coisa para mim, para eu conseguir alguma coisa, eu penso “como que eu posso explorar essa pessoa aqui, aquela outra…”. Esse é o egoísmo tolo. Mas a sua felicidade, o seu bem estar na vida depende dos outros seres humanos. Então cuidar, compartilhar de uma forma sincera, traz honestidade, traz verdade e daí você pode viver de uma forma transparente, o que traz confiança e o que traz amizade. Nós precisamos de amigos.

Então é simples! Eu não estou falando de uma vida futura. Sua vida futura é problema seu, mas o bem estar de sete bilhões de pessoas é uma responsabilidade comum. E a educação tem um papel fundamental. Para que nós possamos abordar um problema, nós precisamos olhar de vários ângulos diferentes. A partir de um único ponto de vista, de uma única dimensão não é possível observar o problema de forma plena. Nós temos que olhar de vários ângulos diferentes. Nós temos que conhecer o quadro inteiro da realidade senão o seu esforço se torna não realista. Então a consciência é um fator fundamental, é um fator chave. O que nós podemos dizer é que grande parte dos problemas que nós estamos enfrentando se devem à falta de consciência sobre a realidade. Eu penso assim.”

E então o Dalai Lama pergunta para a Soma Stout:

“E aí? Você gostaria de debater?”

Soma Stout responde:

“Eu jamais argumentaria com o senhor, Sua Santidade. Eu sei que o senhor é um grande debatedor com muitos anos de experiência.”

Dan Haris, o apresentador do debate faz uma pergunta que poderia ser resumida assim:

“Existe uma onda de prática de meditação e essas práticas, embora sejam cada vez mais populares, elas também são acusadas de ser um budismo disfarçado e de ser sectárias. Então uma vez que essas práticas de fato derivam do budismo, como é que elas poderiam não ser consideradas sectárias?”

                      A resposta do Dalai Lama:

“Eu entendo que todas as religiões são religiões de seres humanos, não de deuses ou de anjos, são religiões de seres humanos e eu entendo que todas as religiões enfatizam e dão importância ao amor. As religiões ensinam práticas de tolerância, de generosidade, de abandonar o egoísmo, todas elas reconhecem que nós temos negatividades e que há emoções que são destrutivas. E pra trazer felicidade para o indivíduo é preciso entender que a fonte verdadeira e absoluta da felicidade é o amor. E assim todas as religiões que eu conheço usam método de promover os valores básicos dos indivíduos. E para fazer isso, então elas utilizam métodos diferentes, formas diferentes de visão como Deus, o criador e diferentes conceitos e diferentes abordagens, mas o objetivo é o mesmo. Nós estamos falando a respeito da humanidade. Então, é possível que dentre os sete bilhões de pessoas, um bilhão de pessoas que não tem nenhuma religião, mas eles também são irmãos e irmãs. Nós também temos que nos concentrar com seriedade no bem estar dessas pessoas. Então o método precisa incluir esses valores internos. Eu acho que se nós usarmos a palavra meditação eles podem pensar que esse é um método religioso. É bem compreensível. Então eu simplesmente diria consciência. Consciência de uma realidade mais profunda. E então treinamento da mente. Eu realmente acho que meditação, Vipashyana, Shamatha, o objetivo dessas práticas é conduzir ao Nirvana. São objetivos para além desta vida. Mas o nosso assunto aqui é como criar mais felicidade nesta mesma vida e a felicidade tem muita relação com a mente, não apenas com o corpo físico que pode representar dificuldades, mas é preciso que a mente esteja muito pacífica, muito feliz.

Eu sempre comento que uma vez conheci na Espanha um monge católico. Ele passou cinco anos num eremitério nas montanhas, vivendo como um ermitão. Poucas refeições quentes, só pão e chá. Quando o encontrei então eu perguntei: “eu soube que você passou cinco anos na montanha levando uma vida de ermitão, sem nenhuma modernidade. Que tipo de prática você fazia?” e ele respondeu: “meditava sobre o amor”. Quando ele me respondeu isso eu notei alguma coisa especial no olhar dele. Então isso é muito significativo.

Eu também conheci um monge tibetano que passou 18 anos (ou mais) numa prisão chinesa. Ele passou por muitas dificuldades. Nos anos 80 ele teve uma permissão dos chineses para ir pra Índia e, como nós nos conhecíamos, tivemos um encontro informal. Então ele comentou que durante esses 18 anos algumas ocasiões ele realmente enfrentou um perigo e eu pensei bom talvez tenha sido um perigo da própria vida, e eu perguntei: “mas que tipo de perigo?” e ele respondeu: “o perigo de perder a compaixão pelos perpetradores, pelos guardas da polícia chinesa”. Ele considerava a prática da compaixão muito, muito importante. Então perder isso, pra ele, era realmente um perigo muito grave. Eu acho que hoje em dia ele tem 98 anos ou algo assim. Então ele tem algumas dificuldades físicas, mas ele está sempre sorrindo. É uma pessoa muito, muito feliz. Eu acho que se naqueles momentos ele tivesse perdido a compaixão, ele não estaria vivo à esta altura, porque ele teria sofrido mais frustração, mais raiva. Esses são exemplos vivos! Então, não faz diferença se são budistas ou se são cristãos.

Da mesma forma alguns amigos meus que são muçulmanos são profunda e verdadeiramente dedicados. Eles me dizem que o praticante verdadeiro do Islã deve sentir amor por todas as criaturas, por toda criação de Alah. Isso é maravilhoso. O problema é que nós não praticamos de forma muito séria essas coisas, inclusive os budistas tibetanos. Algumas vezes eles se perdem na política dos lamas, mas a gente deveria acrescentar essa palavra no dicionário “política dos lamas”. Então eles se preocupam com nomes, com números de seguidores, um monte de competição. As pessoas supostamente são praticantes, mas não são sérios o suficiente, sinceros o suficiente. Então ainda há espaço para algumas emoções negativas. Eu acho que os seguidores e os praticantes de todas as tradições deveriam ser sérios com respeito a prática e aí todos teriam potencial equivalente.

Então eu acho que a própria palavra “meditação” tem uma conexão muito grande com a tradição indiana antiga. Me disseram que nas ilhas gregas eles ainda praticam a meditação, numa tradição cristã antiga, mas ainda assim eu acho que essa palavra “meditação” vem da tradição indiana antiga. Então talvez seja melhor usar a palavra consciência ou prestar mais atenção, ou treinamento da mente, algo assim.”

Dan Haris pergunta então qual seria a melhor idade para começar a aprender meditação. E o Dalai Lama responde:

“Claro que as crianças são seres humanos e o sete bilhões de seres humanos nascem com o mesmo potencial. Nós precisamos nutrir isso socialmente, demonstrando um amor, um afeto incondicional, demonstrando um amor incondicional pra criança. Eu sempre digo para as pessoas, compartilho as experiências que eu escutei dos estudiosos. A proximidade da mãe, o toque da mãe com a criança é essencial… passar mais tempo com a criança. A amamentação é igualmente essencial. Eu acho que essa é a forma de verdadeiramente nutrir essa natureza humana básica, essa qualidade bondosa humana básica, essa qualidade biologicamente básica e aí por fim a educação precisa incluir os valores internos, baseando-se estritamente nos achados científicos, nos dados de pesquisas cientificas e não nas filosofias e nos livros antigos, nas escrituras. Eu acho que durante a minha vida vai ser difícil de ver isso acontecendo, mas na geração dos seus filhos, essa é uma possibilidade real – ver um mundo melhor, mais compassivo, mais pacífico, por meio da paz interna.

Sem paz interna é impossível criar paz no mundo. A paz no mundo não vai ser alcançada por meio das armas, pela raiva, pelo ódio, pela falta de confiança. A paz no mundo só pode ser alcançada por meio da bondade amorosa, pelo respeito à vida das outras pessoas – cada um se preocupando seriamente com o bem estar do outro com base nessa noção de uma única humanidade, de sete bilhões de pessoas. Eu acho que isso é algo realista.

                     A ultima pergunta feita pela platéia para o Dalai Lama é como lidar com pessoas como as do ISIS que matam pessoas de uma forma  selvagem, fazem ataques violentos, como lidar com essas pessoas? Uma outra pergunta associada é “você considera que algum caso em que a violência possa ser justificada ou legitima”?

                     E a resposta do Dalai Lama: 

Essa é realmente uma pergunta bem difícil. Eu entendo que respostas duras, ásperas, partindo da compaixão, partindo da preocupação com o outro, algumas vezes são possíveis, mas eu acho que é sempre melhor evitar a violência. Porque a violência, uma vez iniciada, independente de ser por uma boa motivação ou não, ela acaba gerando mais violência. Ela facilmente sai do controle. Então é sempre melhor evitar a violência. A melhor forma é sempre o diálogo, a conversa.

Esses seres do ISIS, esses terroristas, eles são seres humanos e eles também têm dentro de si a semente da compaixão. Então, em respeito a essa semente, é preciso dialogar. Eu sempre digo que precisamos fazer do século XXI o século da paz, sendo que paz não significa que não haverá nenhum potencial de conflito. O potencial para o conflito vai estar sempre presente e então, frente qualquer potencial de conflito, é preciso estabelecer o diálogo. Portanto, o século XXI deve ser o século do diálogo. Esse é o único jeito.

Na minha vida, eu testemunhei a segunda guerra mundial, a guerra civil da China, a guerra na Coreia e, com 81 anos, ainda vejo muita violência, muito conflito. Eu acho que se isso continuar, esse século vai continuar sendo um século de derramamento de sangue. Por isso que nós precisamos fazer o esforço para fazer com que esse século seja o século da paz. Este século precisa ser o século da paz, precisa ser o século da não violência, por meio do esforço e não de orações. Acho que há mais de mil anos os meus irmãos e irmãs tibetanos rezam, rezam, rezam, mas eu acho que os resultados dessas preces não chegaram.

Eu sempre brinco que se nós encontrássemos com Jesus Cristo ou com Buda e se olhássemos pra eles e disséssemos: “por favor tragam paz para o mundo”, eles nos responderiam: “quem foi que criou esse problema?” Se Deus tivesse criado esse problema então poderíamos chegar para Ele e pedir “por favor traga paz pro mundo”. Mas nós é que começamos esse problema, então nós é que temos a responsabilidade de resolvê-los. Nós precisamos fazer esse esforço. com uma motivação sincera, séria e com uma clara compreensão da realidade sobre consequências a longo prazo e a curto prazo e além disso, com orações. Eu acho que isso é realista.”

                     Muitos e muitos e muitos aplausos!

 

 

 

O céu estava nublado naquela manhã, mas ocorria um caloroso reencontro entre Sua Santidade o Dalai Lama e seu velho amigo Paul Ekman. Acompanhado de sua filha Eve, de sua esposa Mary Ann Mason e de Eric Rodenback, Ekman veio para relatar o progresso na criação de um Mapa de Emoções. Sua Santidade iniciou a conversa:

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Sua Santidade o Dalai Lama e Paul Ekman

 

“Nosso foco deve ser todos os 7 bilhões de seres humanos que vivem hoje neste planeta, cada um deles querendo ter uma vida feliz. Estamos tentando fazer com que saibam que a felicidade não é totalmente dependente de dinheiro e de coisas materiais, mas sim de valores internos como a compaixão, sem que precisem ter uma crença religiosa. Estamos tentando adotar uma abordagem secular, que possa atingir todos os seres humanos.”

“Nesse esforço, eu valorizo especialmente os cientistas, porque eles tendem a ser movidos unicamente pela experiência e por evidências. Nós devemos fundamentar a promoção dos valores seculares na nossa experiência comum de termos nascido e de termos sido criados sob o abrigo do carinho dos nossos pais; no senso comum, tais como o de observar que as pessoas que facilmente cedem à raiva não são felizes; e em evidências científicas que revelam a importância de valores internos como a compaixão. Pode ser que você tenha embarcado sozinho nesse seu trabalho, mas agora há muitos outros que buscam isso também.”

Ekman respondeu: “Você me disse que precisávamos de um mapa das emoções e eu avaliei o trabalho de 250 cientistas que estudam as emoções. Identificamos cinco emoções fundamentais: prazer, raiva, medo, tristeza e aversão. Queremos mostrar como elas funcionam, como as emoções podem nos ajudar, mas também como podem nos trazer problemas.”

Ekman explicou que para este mapa das emoções, apresentado como um modelo de computador, as emoções foram identificadas da maneira como são geralmente definidas em inglês. Ele reconheceu que há emoções que não são nomeadas em Inglês como “schadenfreude” – ter prazer com o desconforto de alguém de quem não gostamos – e “naches“, termo em iídiche que se refere ao orgulho e a alegria que os pais sentem por seus filhos. Ele afirmou que em essa tarefa de delinear e esclarecer as emoções destrutivas e construtivas e as emoções associadas não havia sido tentada em lugar algum. Sua Santidade concordou que as emoções não surgem isoladamente, mas em relação a outras emoções.

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Paul Ekman e sua filha, Eve Ekman, explicam o Mapa das Emoções a Sua Santidade o Dalai Lama

 

Eve Ekman descreveu a linha do tempo empregada no mapa, que inclui a avaliação, os gatilhos emocionais e a maneira como reagimos a eles. Paul Ekman esclareceu que a consciência dos gatilhos emocionais não surge naturalmente, mas é uma habilidade que pode ser cultivada. Ele contou que um de seus gatilhos para irritação e raiva pode ser uma pessoa lhe dizendo o que ele deve fazer. É possível tomar consciência da faísca antes que ela se transforme em chamas. Essa consciência é algo que precisa ser desenvolvido. Sua Santidade concordou com este ponto, citando a observação de Shantideva de que precisamos lidar com a raiva quando ainda está na fase de frustração, e não depois de ter se incendiado.

Eve Ekman disse a Sua Santidade que é necessário saber como criar a calma, como alcançar a paz. As pessoas precisam saber que isso é importante. Paul Ekman sugeriu que há uma serenidade dinâmica que pode nos ajudar a mudar o que está acontecendo. Sua Santidade concordou que podemos nos irritar facilmente, mas que podemos aprender a lidar com isso. Podemos aprender a manter a calma diante de um desafio. Nós podemos, por assim dizer, tomar uma posição e manter a tranquilidade. Ele ressaltou que a inteligência humana nos permite avaliar os nossos interesses a curto e a longo prazos, o que neste caso é útil.

“As práticas indianas e budistas antigas, como por exemplo, concentrar a atenção na respiração, inspirar e expirar, cria uma pausa para a mente. No entanto, isso pode não ajudar muito se apenas uma das partes de uma discussão criar essa pausa. ”

Ekman respondeu que uma regra útil ao treinar crianças é dizer que durante um conflito, se uma das partes der uma pausa, ambas devem parar de discutir.

Quando a apresentação terminou, Sua Santidade elogiou o mapa de emoções como uma grande inovação.

“É maravilhoso e inteligente. O mapa nos permite compartilhar a compreensão de como as emoções destrutivas podem ser prejudiciais. ”

Paul Ekman perguntou Sua Santidade de onde veio a ideia de construir um mapa das emoções e Sua Santidade disse que quando se vai a algum lugar novo, um mapa ajuda a encontrar o caminho de volta. Esse mapa pode nos ajudar a explicar como as emoções construtivas são úteis e o quanto as emoções destrutivas podem trazer prejuízos.

O encontro terminou com uma breve síntese das pesquisas que a equipe ainda pretende fazer. Isso inclui incorporar o humor ao mapa e uma exploração da violência crônica envolvendo a análise do humor, da personalidade e da psicopatologia. Eles querem traduzir todo o projeto para o espanhol, que é a segunda língua falada nos Estados Unidos, e criar uma versão completa que pode ser consultada sem conexão à internet.

Após o almoço, Sua Santidade foi levado ao Rancho Las Lomas, no interior da Califórnia, região selvagem e aberta, a convite do Projeto Peak Mind para falar sobre meditação. Ele foi apresentado a um público atento de cerca de 400 pessoas pelo ator e ativista social Forest Whitaker, que primeiramente cantou “Parabéns pra Você” frente a um bolo de aniversário oferecido a Sua Santidade. Ele incluiu Sua Santidade entre aqueles que, como Martin Luther King Jr, Nelson Mandela e Madre Teresa, nos ajudam a compreender melhor que somos todos iguais.

Antes de convidar Sua Santidade para falar, o organizador Michael Trainer pediu ao músico Tim Fain para prestar um tributo a Sua Santidade com seu violino.

“Irmãos e irmãs”, disse Sua Santidade, “Estou realmente muito feliz por estar aqui. Nos últimos dias estive nas grandes cidades; aqui estamos em uma região bastante remota, entre árvores e uma vegetação que nos fazem sentir mais próximos da natureza. Em nossos grandes edifícios urbanos temos flores e árvores artificiais para nos sentirmos confortáveis, aqui elas são de verdade. Agradeço por seus bons votos para o meu aniversário, mas eu gosto de pensar que cada novo dia é como como um aniversário. É um dia em que celebramos com alegria, e isso é uma indicação de que o objetivo das nossas vidas é sermos felizes. Combinar a nossa inteligência com o calor humano pode ser útil e construtivo.

“Geralmente buscamos o prazer através da experiência sensorial, mas enquanto a experiência sensorial de paisagens e sons agradáveis é passageira ­– dura apenas o tempo em que o estímulo está presente – a nossa experiência mental permanece conosco 24 horas por dia. Quando a música de que gostamos para de tocar, nosso prazer passa a ser apenas uma memória. Já que temos este cérebro maravilhoso, precisamos prestar mais atenção à nossa experiência mental.”

Ele explicou que para treinar e acalmar a mente, podemos escolher um objeto para focar. Pode ser algo como uma flor, uma ideia atraente ou até mesmo a própria mente. Embora seja mais difícil, disse ele, é mais útil e mais eficaz meditar sobre a própria mente. Se aprendermos a nos desprender da atividade sensorial, poderemos vislumbrar uma espécie de ausência. Pode ser breve, mas poderá nos dar uma ideia da claridade da mente. Não é fácil desenvolver uma apreciação do que a mente realmente é, mas é possível. No entanto, isso leva tempo, algo que as pessoas modernas que querem ter tudo imediatamente podem achar difícil.

Sua Santidade também mencionou a meditação analítica – refletir sobre temas como a impermanência.

“As árvores se modificam ao longo das estações e, da mesma forma, tudo também se modifica. Nós podemos examinar e analisar esse fenômeno. Ganhamos compreensão ao ouvirmos sobre alguma coisa, pensando sobre ela até que ganhemos convicção e experiência. Acho que a meditação analítica pode ser útil em qualquer situação. A maioria dos problemas que enfrentamos derivam da nossa incapacidade de compreender a realidade. A meditação analítica nos permite corrigir isso.”

“Depois, vem a questão de desenvolvermos interesse pelos outros. Nós todos temos uma semente natural de afeto dentro de nós, plantada pelo carinho que recebemos de nossos pais. Nós podemos cultivá-la para que ela alcance, não apenas os nossos parentes próximos e amigos, como também todos os 7 bilhões de seres humanos. Os problemas surgem quando nos debruçamos sobre as diferenças que há entre nós, que têm uma importância secundária. Em vez disso, precisamos nos lembrar que nós, seres humanos, somos basicamente todos iguais. Se fizermos isso, reforçaremos a nossa preocupação com os outros e com este planeta, que é nossa única casa.”

Ele sugeriu meditarmos juntos durante cinco minutos, cultivando o cuidado com o outro, olhar para baixo, mas não necessariamente fechados. Ele recomendou também que iniciássemos acalmando a mente agitada, focando na respiração, observando o abdômen subindo e descendo.

Passados os cinco minutos, Sua Santidade ressaltou que “shamatha” ou meditação tranquilizadora, e “vipassana”, ou meditação do insight, são comumente encontrados em muitas tradições indianas. Ele disse que também ouviu dizer que essas práticas também podem ser encontradas entre os monges em partes remotas da Igreja Ortodoxa Grega.

Entre as questões da plateia, foi perguntado o que ele quer dizer quando fala de amor e ele mencionou a proximidade que sentimos um pelo outro. Ele traçou uma analogia com a maneira como as crianças brincam com outras de forma calorosa e aberta, sem nenhuma preocupação com a religião, a raça ou de onde a outra criança vêm. Ele observou que a educação moderna parece mudar isso.

Convidado a explicar como tomar decisões difíceis, Sua Santidade respondeu que é preciso usar a inteligência movida pelo calor humano. Agir por compaixão nos mantém honestos e verdadeiros. Quando questionado sobre como ele se sente sendo o foco da atenção de milhões de pessoas, ele explicou que sempre pensa em si mesmo como apenas um outro ser humano. Pensando dessa forma a respeito de si mesmo, ele se sente rodeado de amigos, relaxado e à vontade.

Sobre meditação, ele disse que por ter imenso efeito sobre nossas emoções destrutivas, essa prática pode transformar nossas vidas. Perguntado, se caso ele pudesse fazer um pedido, qual seria esse pedido, ele respondeu:

“Que o mundo possa ser feliz, que a humanidade possa ser feliz. E a chave para isso é aprender a lidar com as nossas emoções.”

Quando a sessão chegou ao fim, Aloe Blacc, músico e rapper cantou que o amor é a resposta. Michael Trainer agradeceu Sua Santidade novamente por sua presença e agradeceu a todos haviam contribuído para que o evento fosse possível. Sua Santidade encerrou observando que a mudança do mundo começa com os indivíduos, sem que seja necessário esperar por instruções da ONU ou da Casa Branca, e pediu a todos que pensassem novamente sobre tudo o que tinham ouvido.

Tradução livre de Jeanne Pilli
http://dalailama.com/news/post/1293-map-of-emotions-and-meditation-on-compassion

DL 20.58.45

Daniel Goleman, ex-jornalista da área científica do New York Times, é autor de muitos livros, incluindo o best-seller mundial “Inteligência Emocional”. Ele tem convivido com  o Dalai Lama por décadas, especialmente por meio dos encontros organizados continuamente pelo Mind and Life Institute.

Em A Force for Good: The Dalai Lama Vision  for Our World, Goleman descreve uma visão singular para transformar o mundo de maneiras práticas e positivas.

P: O que “A Force for Good” traz de único entre os seus muitos livros?

R: O Dalai Lama, que está completando 80 anos, resume sua mensagem para o mundo de forma bastante ampla. Ele tem oferecido essa visão aos poucos durante anos; as várias horas de entrevistas me permitiram extrair essa visão de forma completa pela primeira vez. Este não é um livro budista; baseia-se em décadas de diálogos com cientistas – a maioria deles organizados pelo Mind and Life Institute. Nesses encontros, ele apresentou por diversas vezes essa visão de um mundo melhor.

P: Dan, você descreve este novo livro como mais do que simplesmente um manifesto de como constituir uma força para o bem. Na verdade, você diz que o  livro Uma Força para o Bem está por trás de um movimento. O que você quer dizer com isso?

R: Uma Força para o Bem compartilha um apelo do Dalai Lama à ação – ele nos impele a agir agora, de todas as maneiras que pudermos, para mover o mundo em uma direção positiva. Este manifesto, porém, vai além de nossos esforços individuais:  promove a visão de uma força coletiva para o bem – um movimento –  que supera em muito as forças da negatividade que atuam hoje no mundo. A teoria de transformação do Dalai Lama apoia-se menos em governos e políticas e mais no poder do coletivo em união, em todos nós, cada um contribuindo da sua própria maneira.

P: No site do Uma Força para o Bem, você apresenta oito maneiras diferentes pelas quais os indivíduos podem se desenvolver, compartilhar e fazer o bem. Você pode nos dar alguns exemplos?

A: Esses são os principais pontos
da visão do Dalai Lama e estão apresentados no site
 www.JoinaForce4Good.org .
 Vão desde ações internas como Liberte a Mente e o Coração e Corporifique a Compaixão, até ações no mundo, tais como Oponha-se à Injustiça, Escolha uma Economia Humana e Cure a Terra. Para cada um destes, o site oferece mais informações em profundidade, exemplos inspiradores e maneiras de agir imediatamente com esses propósitos. Assim, por exemplo, para Liberte a Mente e o Coração temos vídeos inspiradores do impacto da meditação sobre presidiários e de Jon Kabat-Zinn explicando a prática de mindfulness. E nós encorajamos as pessoas a nos contar, postando no site, sobre as maneiras que têm encontrado para agir como uma força para o bem.

Q: Quem você imagina que irá se envolver com o site, e como este site pode ser diferente de outras plataformas para ‘fazer o bem’?

R: O site, assim como o livro, de destina a quem valoriza e deseja abraçar esta visão de uma força para o bem. Uma característica única da visão do Dalai Lama é de que cada um de nós precisa começar com um trabalho interno, se tornando mais calmo e lúcido,  seguindo a estrela guia da compaixão e agindo no mundo a partir desse lugar interno mais positivo. E há uma campanha de acompanhamento na mídia social – Facebook, Twitter, etc – especialmente voltada para a geração do milênio (Millennials), a quem o Dalai Lama chama de “as pessoas do século 21″. Ele entende que o destino do mundo está em grande parte nas mãos dessa geração, e dirige boa parte de sua mensagem a eles, oferecendo um roteiro para que pilotem o mundo em direção a uma era mais positiva da história.

Daniel+Goleman+Dalai+Lama+Visits+UK+Jq4g7kHhgEul

P: Você conhece o Dalai Lama há décadas, principalmente por meio dos diálogos em torno da ciência e da prática contemplativa promovidos pelo Mind and Life Institute. O que você tem visto ao longo dos anos, como área de particular interesse e paixão do Dalai Lama?

R: O Dalai Lama tem particular entusiasmo com respeito à nossa capacidade individual para transformar nossa vida emocional e o nosso compasso moral. Esses pontos iniciais em Uma Força do Bem propõem essa mudança em termos de “higiene emocional” – colocar as nossas emoções destrutivas sob um melhor controle – e adotar a compaixão universal como a nossa bússola moral. Com esse ajuste interno, ele nos impele a agir, para nos tornarmos parte desta força para o bem.

Eu vi esse foco coalescer ao longo das décadas em suas reuniões com os cientistas, e em suas mensagens para o público em geral em todo o mundo. Ele extrai os dados das reuniões científicas para usar como “munição”, como diz, para apoiar sua visão em  discursos públicos. Recentemente, por exemplo, eu o vi citando dados sobre como a empatia e a compaixão parecem ser inatas nas pessoas bem jovens, sobre a capacidade especial que as mulheres têm em empatizar com o sofrimento de outras pessoas, e sobre a capacidade que todos temos de cultivar uma maior compaixão. Todos esses dados chegaram a ele nas reuniões do Mind and Life.

P: Ele está completando 80 anos em julho, mais ou menos na época do lançamento deste livro. Isso é significativo, de alguma forma, para o tema do livro?

R: Como o Dalai Lama se aproxima de sua 90a década, sinto que ele tem uma certa urgência em compartilhar sua visão sobre as várias maneiras como o mundo pode ser melhor. Ele tem uma visão extraordinariamente de longo prazo, pensando em termos de séculos. Ele diz, “aja agora, mesmo que você não viva para ver os frutos de seus esforços.” E assim, ele mesmo corporifica essa mensagem.

Wendy Hasenkamp. Mind and Life Institute

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Você tem familiares, amigos, colegas que dizem que não conseguem meditar?

A neurocientista residente do Mind and Life Institute, Wendy Hasenkamp, explora os equívocos populares sobre meditação e as razões para se continuar tentando.

Quando eu explico para alguém que estou envolvida em pesquisa sobre meditação, não é incomum ouvir: “Ah, meditação – eu tentei. Mas não consigo meditar.”

Essa resposta me traz um misto de emoções com partes iguais de tristeza e frustração, junto com uma grande dose de motivação.

Tristeza porque as pessoas tiveram experiências com a meditação em uma perspectiva negativa e a associaram a uma sensação de ter fracassado. Frustração porque essa associação sempre vem de um mau entendimento cultural sobre o que é a meditação (e o que deve se sentir quando pratica). E motivação: para mudar essa percepção equivocada, para que aqueles que estiverem interessados possam experimentar os benefícios da prática da meditação.

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De volta

09/03/2013 — 6 Comentários

Cinco semanas… Há cinco semanas que nada acontece neste blog. Mas a causa é mais do que boa!

Durante estas últimas semanas, me dediquei exclusivamente às práticas e aos estudos da formação no Programa Cultivating Emotional Balance, com a Dra Eve Ekman e com o Prof Alan Wallace. Uma preciosidade!

Veja aqui o Prof Alan Wallace explicando os fundamentos do Programa:

O Cultivating Emotional Balance foi lindamente estruturado com base nos “Quatro Equilíbrios”:

  • o Equilíbrio Conativo, que trata da nossa visão de mundo, das nossas motivações e prioridades
  • o Equilíbrio da Atenção, que inclui propriamente as práticas de meditação
  • o Equilíbrio Cognitivo, que trata da forma como percebemos o que se apresenta aos nossos sentidos e à nossa mente, e que chamamos de realidade
  • o Equilíbrio Afetivo ou Emocional, que é de certa forma o resultado das práticas anteriores  

Logicamente, estes Quatro Equilíbrios se relacionam intimamente e são inseparáveis. O objetivo final é nada menos do que nos conduzir à Felicidade Genuína ou Eudaimonia – a felicidade proveniente daquilo que trazemos ao mundo e não daquilo que obtemos do mundo.

Mas esta descrição é uma pálida tentativa de contar a vocês um pouquinho do que nos foi oferecido nesse treinamento – a mim, a mais 8 brasileiros e outras pessoas sensacionais de diversas partes do mundo. Minha próxima tarefa agora é pensar nos vários formatos em que esse conteúdo todo pode ser apresentado, nos diversos níveis de profundidade e da forma mais apropriada, e com muita alegria!

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Uma moeda ou um sorriso

A meditação está associada a uma série de benefícios à saúde, incluindo uma melhor saúde mental, melhor cognição funcional, e até mesmo a um aumento da massa cinzenta no cérebro.

No entanto, as implicações sociais da meditação nunca foram estudadas cientificamente. “Sabemos que a meditação melhora o bem-estar físico e psicológico”, disse Paul Condon, um estudante de pós-graduação no laboratório de David DeSteno, investigador principal. “Queríamos saber se a meditação realmente favorece o comportamento compassivo.”

Em um novo estudo conduzido por Condon, a equipe DeSteno mostrou que mesmo um breve período de treinamento de meditação é de fato suficiente para incrementar em quase quatro vezes a atitude compassiva para com um estranho em sofrimento. Os resultados serão em breve publicados na revista Psychological Science.

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