Arquivos para Compaixão

tumblr_ns5rlcgI6t1tr508go1_500

 

Imagine que você está caminhando por uma calçada com os braços cheios de mantimentos e alguém tromba com você. Você cai e seus mantimentos se espalham pelo chão. Levantando-se da poça de ovos quebrados e suco de tomate, você está prestes a gritar, “Seu idiota! O que há de errado com você? Você é cego?” Mas antes mesmo de conseguir recuperar o fôlego para falar, você vê que a pessoa que trombou com você é realmente cega. Ela também está esparramada por sobre os mantimentos. A sua raiva desaparece em um instante, e é substituída por uma preocupação: “Você está ferido? Posso ajudá-lo? ”

Nossa situação é assim. Quando percebemos claramente que a fonte de sofrimento e angústia do mundo todo é uma profunda cegueira, que nos impede de reconhecer que as aflições mentais são os nossos reais inimigos, conseguimos abrir as portas da sabedoria e da compaixão. E aí então, estaremos em condições de curar nós mesmos e os outros.

~ Alan Wallace

 

DL 20.58.45

Daniel Goleman, ex-jornalista da área científica do New York Times, é autor de muitos livros, incluindo o best-seller mundial “Inteligência Emocional”. Ele tem convivido com  o Dalai Lama por décadas, especialmente por meio dos encontros organizados continuamente pelo Mind and Life Institute.

Em A Force for Good: The Dalai Lama Vision  for Our World, Goleman descreve uma visão singular para transformar o mundo de maneiras práticas e positivas.

P: O que “A Force for Good” traz de único entre os seus muitos livros?

R: O Dalai Lama, que está completando 80 anos, resume sua mensagem para o mundo de forma bastante ampla. Ele tem oferecido essa visão aos poucos durante anos; as várias horas de entrevistas me permitiram extrair essa visão de forma completa pela primeira vez. Este não é um livro budista; baseia-se em décadas de diálogos com cientistas – a maioria deles organizados pelo Mind and Life Institute. Nesses encontros, ele apresentou por diversas vezes essa visão de um mundo melhor.

P: Dan, você descreve este novo livro como mais do que simplesmente um manifesto de como constituir uma força para o bem. Na verdade, você diz que o  livro Uma Força para o Bem está por trás de um movimento. O que você quer dizer com isso?

R: Uma Força para o Bem compartilha um apelo do Dalai Lama à ação – ele nos impele a agir agora, de todas as maneiras que pudermos, para mover o mundo em uma direção positiva. Este manifesto, porém, vai além de nossos esforços individuais:  promove a visão de uma força coletiva para o bem – um movimento –  que supera em muito as forças da negatividade que atuam hoje no mundo. A teoria de transformação do Dalai Lama apoia-se menos em governos e políticas e mais no poder do coletivo em união, em todos nós, cada um contribuindo da sua própria maneira.

P: No site do Uma Força para o Bem, você apresenta oito maneiras diferentes pelas quais os indivíduos podem se desenvolver, compartilhar e fazer o bem. Você pode nos dar alguns exemplos?

A: Esses são os principais pontos
da visão do Dalai Lama e estão apresentados no site
 www.JoinaForce4Good.org .
 Vão desde ações internas como Liberte a Mente e o Coração e Corporifique a Compaixão, até ações no mundo, tais como Oponha-se à Injustiça, Escolha uma Economia Humana e Cure a Terra. Para cada um destes, o site oferece mais informações em profundidade, exemplos inspiradores e maneiras de agir imediatamente com esses propósitos. Assim, por exemplo, para Liberte a Mente e o Coração temos vídeos inspiradores do impacto da meditação sobre presidiários e de Jon Kabat-Zinn explicando a prática de mindfulness. E nós encorajamos as pessoas a nos contar, postando no site, sobre as maneiras que têm encontrado para agir como uma força para o bem.

Q: Quem você imagina que irá se envolver com o site, e como este site pode ser diferente de outras plataformas para ‘fazer o bem’?

R: O site, assim como o livro, de destina a quem valoriza e deseja abraçar esta visão de uma força para o bem. Uma característica única da visão do Dalai Lama é de que cada um de nós precisa começar com um trabalho interno, se tornando mais calmo e lúcido,  seguindo a estrela guia da compaixão e agindo no mundo a partir desse lugar interno mais positivo. E há uma campanha de acompanhamento na mídia social – Facebook, Twitter, etc – especialmente voltada para a geração do milênio (Millennials), a quem o Dalai Lama chama de “as pessoas do século 21″. Ele entende que o destino do mundo está em grande parte nas mãos dessa geração, e dirige boa parte de sua mensagem a eles, oferecendo um roteiro para que pilotem o mundo em direção a uma era mais positiva da história.

Daniel+Goleman+Dalai+Lama+Visits+UK+Jq4g7kHhgEul

P: Você conhece o Dalai Lama há décadas, principalmente por meio dos diálogos em torno da ciência e da prática contemplativa promovidos pelo Mind and Life Institute. O que você tem visto ao longo dos anos, como área de particular interesse e paixão do Dalai Lama?

R: O Dalai Lama tem particular entusiasmo com respeito à nossa capacidade individual para transformar nossa vida emocional e o nosso compasso moral. Esses pontos iniciais em Uma Força do Bem propõem essa mudança em termos de “higiene emocional” – colocar as nossas emoções destrutivas sob um melhor controle – e adotar a compaixão universal como a nossa bússola moral. Com esse ajuste interno, ele nos impele a agir, para nos tornarmos parte desta força para o bem.

Eu vi esse foco coalescer ao longo das décadas em suas reuniões com os cientistas, e em suas mensagens para o público em geral em todo o mundo. Ele extrai os dados das reuniões científicas para usar como “munição”, como diz, para apoiar sua visão em  discursos públicos. Recentemente, por exemplo, eu o vi citando dados sobre como a empatia e a compaixão parecem ser inatas nas pessoas bem jovens, sobre a capacidade especial que as mulheres têm em empatizar com o sofrimento de outras pessoas, e sobre a capacidade que todos temos de cultivar uma maior compaixão. Todos esses dados chegaram a ele nas reuniões do Mind and Life.

P: Ele está completando 80 anos em julho, mais ou menos na época do lançamento deste livro. Isso é significativo, de alguma forma, para o tema do livro?

R: Como o Dalai Lama se aproxima de sua 90a década, sinto que ele tem uma certa urgência em compartilhar sua visão sobre as várias maneiras como o mundo pode ser melhor. Ele tem uma visão extraordinariamente de longo prazo, pensando em termos de séculos. Ele diz, “aja agora, mesmo que você não viva para ver os frutos de seus esforços.” E assim, ele mesmo corporifica essa mensagem.

15119-mindful_news

 

O Centro de Stanford para Pesquisa e Educação sobre Compaixão e Altruísmo constatou que o treinamento com a meditação compassiva pode reduzir a divagação mental e encorajar um comportamento benevolente e cuidador com relação a si mesmo e aos outros.

A meditação compassiva é focada em pensamentos benevolentes em relação a si mesmo e aos outros. Neste aspecto ela é diferente da maioria das formas de meditação.

O artigo “Uma mente que divaga é uma mente menos cuidadora”, foi publicado recentemente no Journal of Positive Psychology.

A divagação mental é a experiência de a atenção não permanecer em um único objeto por muito tempo. Pesquisas anteriores sugeriram que as pessoas gastam cerca de 50 por cento de suas horas de vigília em divagação mental, muitas vezes sem perceber.

Uma maneira de reduzir a divagação mental é através de práticas que melhoram a “atenção plena”, disseram os pesquisadores.

Diferente de outras formas de meditação, a meditação compassiva envolve o reconhecimento e o desejo de aliviar o sofrimento dos outros e de si mesmo e uma capacidade de resposta ou de prontidão para ajudar a aliviar esse sofrimento.

O estudo examinou 51 adultos durante um programa de meditação compassiva, medindo seus vários estados de divagação mental (temas neutros, agradáveis ​​e desagradáveis) e comportamentos cuidadores com respeito a si e aos outros. Os participantes seguiram um programa secular de treinamento em meditação compassiva desenvolvido na Universidade de Stanford, que consiste em nove aulas de duas horas com um instrutor certificado.

Os praticantes incentivados a meditar por pelo menos 15 minutos diários, se possível, 30 minutos. Em vários intervalos, perguntava-se aos participantes: “Você está pensando em algo diferente do que você está fazendo neste momento?” e “Você já fez alguma coisa hoje para cuidar de si mesmo? e, em seguida, e para cuidar dos outros?

Os resultados indicaram que a meditação compassiva diminuiu a divagação da mente para temas neutros e aumentou comportamentos de cuidado para consigo mesmo.

Além disso, quanto mais os participantes se dedicavam à prática da meditação compassiva, menos suas  mentes divagavam para temas desagradáveis e mais para temas agradáveis, e ambos os efeitos foram relacionados com aumentos de comportamentos de cuidado para si mesmo e outros.

 

A divagação mental nem sempre é problemática

Os pesquisadores dizem que o estudo é o primeiro a demonstrar que o treinamento formal em compaixão pode reduzir a divagação mental e acentuar comportamentos cuidadores de si e dos outros.

James Doty, co-autor do estudo, observou que, por si só, a divagação mental pode não ser necessariamente ruim. Ao contrário da divagação mental que derivou para temas negativos ou neutros, os pesquisadores não encontraram nenhuma diminuição no comportamento cuidador quando a mente divagava para tópicos positivos.

As pessoas permitem que as suas mentes divaguem, por escolha ou por acidente, porque às vezes produz recompensas concretas – como um insight ou mesmo a sobrevivência física.

Por exemplo, reler uma linha de texto três vezes porque a nossa atenção se afastou pouco importa, caso essa mudança de atenção tenha rendido um insight ou uma sensação agradável. Isso contrasta com uma divagação mental que desencadeie uma onda de ansiedade e medo, por exemplo.

Doty ressaltou que um dos traços evolutivos na espécie humana é a capacidade de monitorar possíveis ameaças e imediatamente focalizar a atenção sobre essas ameaças.

“Se houver muitas dessas ameaças ou, como no caso da vida na sociedade moderna, com tantas situações que demandam a nossa atenção, o nosso sistema interno analisa essas ameaças e pode nos fazer sentir oprimidos, ansiosos e exaustos”, disse ele.

Doty acrescentou que a divagação mental pode ser reflexo desta realidade, uma vez que a atenção está sendo continuamente desviada.

 

Tradução livre de Jeanne Pilli:
http://news.stanford.edu/news/2015/april/mindful-meditation-benefits-042215.html

Thich Nhat Hanh, Inviting the Bell with Children, Vancouver (8/1

~ por John Snyder – Professor

 

Nas ocasiões em que eu desacelerei o suficiente para realmente refletir sobre isso, ocorreu-me que o meu trabalho como professor Montessoriano é muito difícil para alguém com habilidades limitadas como eu, ou seja, para alguém que ainda precisa se alimentar, dormir e ocasionalmente se divertir. As demandas parecem não parar nunca, e quando acontece de diminuírem de vez em quando, tenho um enorme acúmulo de projetos de melhoria para preencher esse tempo.

Os pais às vezes perguntam com uma certa admiração: “Como você faz isso?” É mesmo! Como é que uma pessoa não só continua, mas faz tudo isso com ânimo, feliz, com um senso de perspectiva e, quase sempre,  calmamente presente na sala de aula?

Fico feliz em compartilhar pelo menos parte do “como eu faço isso.” Suspeito que por trás de cada professor bem-sucedido está uma prática de cuidado consigo mesmo e de reflexão, embora raramente falemos sobre essas coisas uns com os outros. Talvez devêssemos. Continue lendo…

P1000992

 

Tradução livre do texto de Heather Plett – “What means to hold space for people plus eight tips on how to do it well”.

 

Quando minha mãe estava morrendo, eu e meus irmãos nos reunimos para ficar com ela em seus dias finais. Nenhum de nós sabia nada sobre apoiar alguém em sua transição desta vida para a próxima, mas estávamos certos de que queríamos mantê-la em casa, e assim fizemos.

Enquanto nós apoiávamos nossa mãe, éramos apoiados por uma talentosa enfermeira de cuidados paliativos, Ann, que vinha todos os dias para cuidar dela e conversar conosco sobre o que poderia acontecer nos próximos dias. Ela nos ensinou como injetar morfina quando ela ficava inquieta, se oferecia para fazer as tarefas mais difíceis (como dar banho) e nos dava apenas as informações que precisávamos sobre coisas, por exemplo, o que fazer com o corpo dela após o momento de sua morte.

“Levem o tempo que precisarem”, disse ela. “Vocês podem deixar para chamar a funerária apenas quando estiverem prontos. Reúnam as pessoas que querem se despedir. Sentem-se com sua mãe, se precisarem. Quando estiverem prontos, chamem o serviço funerário e eles virão buscá-la.”

Continue lendo…

11060285_406875476158888_8256107729628693751_n

“Quando nossas mentes estão cheias de raiva e de ódio por outras pessoas, na verdade, nós somos os únicos que estamos realmente sofrendo, aprisionados nesse estado mente. Mas não é muito fácil acessar o lugar dentro de nós que é capaz de perdoar, que é capaz de amar. Sob alguns aspectos, ser capaz de perdoar, de abrir mão, é uma espécie de morte. É a capacidade de dizer: “Eu não sou mais aquela pessoa, e você não é mais aquela pessoa.” O perdão nos permite recuperar uma parte de nós mesmos que havia ficado para trás presa a um evento passado. Pode ser que alguma parte da nossa identidade precise morrer nesse abrir mão, para que possamos recuperar a energia presa ao passado. Todos esses ensinamentos estão disponíveis para nós, mas apenas se pudermos estar conscientes daquilo que estamos sentindo, do modo mais profundo possível, sem que nada seja ocultado da nossa consciência. Então, podemos analisar: Que luta é essa? Por que estamos lutando? É importante entender que coisa alguma pode nos faz sentir bem ou mal. Nada está isolado neste mundo condicionado. Nós vivemos em uma realidade interdependente, onde temos a situação do momento presente e também tudo o que nós estamos trazendo conosco.”
~ Sharon Salzberg – Loving Kindness