Arquivos para Alan Wallace

tumblr_ns5rlcgI6t1tr508go1_500

 

Imagine que você está caminhando por uma calçada com os braços cheios de mantimentos e alguém tromba com você. Você cai e seus mantimentos se espalham pelo chão. Levantando-se da poça de ovos quebrados e suco de tomate, você está prestes a gritar, “Seu idiota! O que há de errado com você? Você é cego?” Mas antes mesmo de conseguir recuperar o fôlego para falar, você vê que a pessoa que trombou com você é realmente cega. Ela também está esparramada por sobre os mantimentos. A sua raiva desaparece em um instante, e é substituída por uma preocupação: “Você está ferido? Posso ajudá-lo? ”

Nossa situação é assim. Quando percebemos claramente que a fonte de sofrimento e angústia do mundo todo é uma profunda cegueira, que nos impede de reconhecer que as aflições mentais são os nossos reais inimigos, conseguimos abrir as portas da sabedoria e da compaixão. E aí então, estaremos em condições de curar nós mesmos e os outros.

~ Alan Wallace

 

O Prof Alan Wallace disse recentemente que “vivemos em uma era de deficit de atenção”. Talvez essa seja a raiz de todos os dramas dos relacionamentos. Temos uma imensa dificuldade de oferecer o maior presente que podemos dar ao outro: a nossa atenção.

Veja estes vídeos curtinhos de entrevistas do Prof Alan Wallace, de Matthieu Ricard e de Jetsunma Tenzin Palmo às australianas que organizam o movimento “One Moment Please“.

(acione a legenda em português no ícone quadradinho do lado direito inferior da tela – segundo ícone da esquerda para a direita)

 

 

 

Podemos cultivar a atenção durante todo o dia. Podemos até iniciar elegendo tarefas como tomar banho, lavar a louça, almoçar ou qualquer outra para estarmos completamente presentes, relaxados, abertos para o frescor de cada momento. Aos poucos, vamos estabelecendo uma nova forma de nos relacionarmos com o mundo.

Mas é preciso treinar um pouquinho de maneira mais estruturada. As técnicas mais utilizadas são as práticas de shamatha.

Shamatha pode ser traduzida como aquietar, cultivar ou familiarizar-se. A base de qualquer prática meditativa é o relaxamento. Se pensarmos em shamatha como se fosse uma árvore, o relaxamento seria a raiz. Aqui está uma meditação guiada para treinar o relaxamento. Comece por aqui:

http://equilibrando.me/2015/05/06/meditacao-guiada-cultivando-o-relaxamento/

Mas relaxar não é suficiente. É preciso treinar a estabilidade da atenção; na metáfora da árvore, a estabilidade seria o tronco. Estabilidade é a habilidade de sustentar o foco da atenção no objeto de escolha. Nesta prática, escolhemos as sensações da respiração no abdômen. As sensações táteis são por si só silenciosas; não tem conceito e nem discurso ali dentro. A mente pode por fim descansar, em um modo não conceitual. O relaxamento permite que a mente estabilize e a estabilidade aprofunda o relaxamento.

Divirta-se!

 

 

As práticas de atenção plena à respiração são essenciais para desenvolvermos o relaxamento e a estabilidade da atenção, sem perdermos a clareza da mente. Podemos então utilizar essa atenção mais refinada para observarmos essa ilustre e desconhecida companheira de todos os momentos – a nossa própria mente.

O Prof Alan Wallace compara a prática de shamatha à construção de um telescópio de alta resolução, como o telescópio Hubble, que nos permitirá investigar esse espaço inexplorado que é a nossa própria mente.

A mente é o domínio de experiências não ligadas aos cinco sentidos físicos – visão, audição, tato, olfato e paladar – onde surgem os pensamentos, memórias, imagens, desejos, emoções e outros fenômenos. Em geral, nos identificamos completamente com esses conteúdos e saltamos para dentro deles, editamos histórias, tentamos resolver problemas (que na maior parte das vezes nem chegam a acontecer), confundindo-os com a realidade objetiva.

Nesta prática, nos tornamos lúcidos com respeito à nossa própria mente, tomando todos os fenômenos mentais pelo que de fato são, da forma mais passiva possível, sem nos envolvermos com eles. Assim, sem ser arrastada por cada pensamento, ou por cada emoção, ou por cada impulso que surge no espaço da mente, a consciência pode por fim repousar em seu estado natural.

“Há uma espécie de força centrifuga na mente humana, que se chama modernidade.

Ela nos dispersa e torna difícil sustentar nossa atenção por 5 segundos seguidos.

Esta não é uma boa fórmula para florescermos ou sobrevivermos como espécie humana.”

~ Alan Wallace

 

Veja o vídeo completo “Um Momento por Favor!”.

[Acione a legenda em português, se desejar]

wallace

Transcrevo aqui uma excelente reflexão do Prof. Alan Wallace oferecida em Londres, em abril de 2014.

“Para explorar em profundidade a busca pela felicidade genuína, pela felicidade autêntica, é preciso desviar a atenção da busca pela felicidade hedônica. Há uma analogia que funciona para mim. Há cerca de um século, no Reino Unido, nos Estados Unidos e em alguns outros países, as cidades enfrentavam um grande problema decorrente da poluição causada uso do carvão. Em Londres, por exemplo, este era um enorme problema.

Agora imagine hipoteticamente uma comunidade cuja única fonte de energia provém de uma usina de carvão. E é claro que essa população sofre de diversas doenças respiratórias – tosse intensa, câncer, crianças morrem devido a essas doenças e assim por diante. As pessoas convivem com o problema, mas muito mal. E um dia, alguém que vive nesse lugar ouve a respeito da captação de luz solar para gerar energia. E isso parece ser muito bom! E começam então a investir pesadamente em muitos e muitos paineis solares. Eles instalam os paineis e começam a tentar captar a luz solar. Mas o ar é tão contaminado por essa densa fumaça negra que os paineis solares simplesmente não funcionam. Então, o que eles precisam fazer? Não há nada a ser feito da noite pro dia. Eles precisam ir gradualmente desativando a usina de carvão para reduzir a contaminação do ar e para que a luz do sol possa começar a atingir os paineis. Após algum tempo, seguindo esse processo gradual, a usina de carvão poderá ser completamente desativada e os paineis poderão funcionar plenamente.

A analogia diz respeito à popularização da meditação, especialmente a chamada “mindful revolution“, entre outras. É uma boa coisa, na medida que essas técnicas aliviam o sofrimento, ajudam a tratar dores crônicas, manejar o estresse, etc. Isso é maravilhoso. Mas uma prática meditativa descontextualizada, seja ela mindfulness, conforme descrita pelos psicólogos, ou seja shamatha, vipassana ou até a meditação transcedental, ainda que sejam bons métodos, se não implicar uma transformação na forma de ver a realidade – “não mexa nas minhas premissas, nas minhas crenças, mas estou muito estressado, sofro muita pressão, me dê uma meditação, uma medicação (como se a diferença fosse apenas uma consoante)” – essa prática será na verdade apenas um band-aid. Você pode fazer isso. Você pode meditar sem transformar sua visão de mundo, suas premissas, sem nunca desafiar seus valores, suas prioridades. Você pode também meditar durante 15, 20 minutos em meio a um estilo vida frenético, sem modificá-lo em nada. Você pode fazer isso! Não há nenhuma lei contra isso. Mas isso não é uma revolução – isso é um band-aid. E eu não estou falando sobre práticas que outras pessoas ensinam – estou falando sobre as práticas que eu mesmo ensino. São métodos sensacionais, mas se eles se resumirem a isso, sem transformar seus valores, sua visão de mundo e o seu estilo de vida – “estou muito estressado, me dê alguma coisa que não seja um medicamento” – está bem, mas é isso que você terá: apenas algo para substituir uma droga. Nesse caso, você não terá desligado a sua usina de carvão – você terá ligado os paineis solares e conseguirá captar apenas alguns fracos raios de sol.

A busca da felicidade implica questionar, explorar, desafiar as nossas próprias crenças. Não as crenças de outras pessoas – isso é fácil! Examinar, analisar, desafiar as nossas próprias premissas, a nossa própria visão de mundo – é isso que permitirá que uma verdadeira revolução aconteça. Isso significa não estarmos mais focados exclusivamente na busca incessante por prazeres hedônicos, durante cada momento das nossas vidas. Só assim será possível gradualmente desativar a usina de carvão.

Fotografia de Montgomery Martin / Alamy

Fotografia de Montgomery Martin / Alamy

O Professor Alan Wallace sempre nos convida a refletir sobre o que seria de fato importante se estivéssemos cara a cara com a morte. Para a maioria de nós, a perspectiva será absolutamente diferente desta que temos hoje, neste momento, em que achamos que a morte é algo que vai acontecer em um momento muito muito distante.

O que será que as pessoas que estão morrendo têm a dizer sobre isso?

Bronnie Ware é uma enfermeira australiana que passou vários anos trabalhando em cuidados paliativos, cuidando de pacientes nos últimos 12 semanas de suas vidas. Ela reuniu os relatos de seus pacientes em um livro chamado The Top Five Regrets of the Dying (em português seria algo como “os cinco arrependimentos mais comuns de pessoas que estão morrendo”).

Aqui estão as cinco principais arrependimentos das pessoas que estão à beira da morte, testemunhados por Ware:

1. Gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida mais fiel a mim mesmo, e não de acordo com as expectativas que outros tinham com respeito à minha vida.

“Este foi o arrependimento mais comum. Quando as pessoas percebem que sua vida está quase no fim e olham para trás com clareza, é fácil ver quantos sonhos não foram realizados. A maioria das pessoas não tinha honrado nem a metade de seus sonhos e morreriam  sabendo que isso se devia a escolhas que fizeram, ou não fizeram. A saúde traz uma liberdade que muito poucos percebem, até o momento em que já não a têm. ”

2. Gostaria de não ter trabalhado tão duro.

Este arrependimento foi citado por todos os pacientes do sexo masculino de quem cuidei. Eles perderam a juventude de seus filhos e a companhia do parceiro. As mulheres também falaram sobre esse arrependimento, mas como a maioria era de uma geração mais velha, muitas das pacientes do sexo feminino não haviam sido chefes de família. Todos os homens de quem cuidei lamentaram profundamente ter gastado tanto tempo de suas vidas no trabalho .

3. Gostaria de ter tido a coragem de expressar meus sentimentos. 

Muitas pessoas suprimiram seus sentimentos, a fim de manter a paz com os outros. Como resultado, eles se contentaram com uma existência medíocre e nunca se tornaram quem eram realmente capazes de se tornar.

4. Gostaria de ter ficado mais em contato com meus amigos.

Muitas vezes, eles não percebiam o quanto poderiam ter se beneficiado da  companhia de seus velhos amigos até suas últimas semanas de vida e nem sempre era possível localizá-los. Muitos tinham se envolvidos tanto em suas próprias vidas que tinham deixado amizades de ouro escapar ao longo dos anos. Eles sentiam arrependimentos profundos por não ter dado às amizades o tempo e a dedicação que mereciam. Todo mundo sente falta de seus amigos quando estão morrendo.

5. Gostaria de ter sido mais feliz.

Este é um arrependimento surpreendentemente comum. Muitos não percebem, até o fim de suas vidas, que a felicidade é uma escolha. Eles haviam ficado presos a velhos padrões e hábitos. O chamado “conforto” ou “familiaridade” havia tomado conta de suas emoções, e de sua vida em geral. O medo da mudança os fez fingir para os outros, e a si mesmos, que estavam contentes, quando no fundo, eles ansiavam rir de verdade e poder brincar novamente.

E você? Qual é o seu maior arrependimento até este momento? E o que você está disposto a fazer antes de morrer?

Trechos traduzidos livremente deste texto do The Guardian:
http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2012/feb/01/top-five-regrets-of-the-dying