Arquivos para Crianças

TeachersO Instituto Garrison se parece um pouco com Hogwarts. O centro de retiro está alojado num antigo mosteiro, em meio a colinas verdes e tranquilas com vista para o Rio Hudson, 60 milhas ao norte da cidade de Nova York e a um mundo de distância dela.

Dentro de sua arejada capela, numa recente tarde de verão, cerca de 35 educadores dos EUA e pelo menos 5 de países estrangeiros, estavam sentados em silêncio, sem sapatos.

“Apenas observe sua respiração, a sensação do ar entrando e saindo” diz Christa Turksma, uma mulher holandesa vestida toda de branco com seu cabelo branco-prateado. Ela é uma das co-fundadoras da CARE – Cultivating Awareness and Resilience for Educators (Cultivando Atenção e Resiliência para Educadores, em português).

Nos últimos nove anos, neste retiro de verão anual de 5 dias, e agora dentro das escolas, a CARE para Professores ensina o que é chamado de mindfulness (atenção plena, em português): acalmar o corpo e a mente através da respiração e movimento, usando insights da psicologia para melhor regular as emoções.

Eles fazem uma série de atividades de role-playing para praticar as habilidades de escuta e condução de conversas difíceis com chefes, pares professores, pais ou alunos. É o primeiro programa de mindfulness a ser estudado com financiamento do Departamento de Educação dos EUA – e dirigido a professores, não diretamente a alunos.

Ensinar é uma atividade inerentemente estressante, e por muitas razões, está ficando cada vez mais. Estudantes trazem o efeito da pobreza e traumas para dentro da sala de aula. Administradores impõe uma pressão de atingir padrões em constante mudança. Nos últimos anos, a satisfação dos professores no emprego atingiu seu nível mais baixo em 25 anos, e o turnover é alto – quase 50% entre os novos professores.

Patricia Jennings não está aí para mudar todos esses índices. Ao invés disso, ela aspira ajudar professores a serem a mudança que eles gostariam de ver no mundo.

Jennings é a segunda co-fundadora do CARE (Richard Brown é o terceiro). Ela tem cabelos cinza cortados em linha reta na franja e um sorriso cândido. Jennings viveu uma infância difícil; ela ficou órfã aos 14 anos quando sua mãe cometeu suicídio.

Então, quando era uma estudante universitária no Arizona na década de 70, ela descobriu a meditação Zen. “Eu comecei a perceber que muito do sofrimento e da ansiedade que eu estava sentindo – que aqueles pensamentos não eram “eu”, ” ela diz. “Aquilo foi uma grande revelação, como oh, este sentimento de temor é um resultado dessa experiência, mas não é quem eu sou e eu posso deixar esses pensamentos simplesmente irem embora. ”

Jennings estudou no Instituto Budista Naropa (agora Universidade Naropa) em Boulder, Colorado. Ela se formou em psicologia e graduou-se também como professora, e então fundou uma escola Montessori onde ela ensinou meditação às crianças já desde 1980.

Em sala de aula, por mais de duas décadas, ela também usou técnicas momento-a-momento de mindfulness, seja para suavizar as transições entre atividades ou enquanto tentava descobrir o que se passava com um estudante aprontando para chamar atenção. Mais tarde, ela começou a ensinar os professores, e então se deu conta que outros professores também poderiam se beneficiar dessas ferramentas.

Jennings é agora professora associada de psicologia da Universidade da Virginia, de onde ela conduz pesquisas sobre o programa CARE para Professores.

Em um estudo prestes a ser publicado, Jennings e seus co-autores forneceram uma versão estendida do programa CARE para 224 professores em áreas de pobreza extrema da cidade de Nova York, com várias sessões de 2 dias espaçadas ao longo de um ano. Os participantes relataram que sua ansiedade, depressão, sentimento de exaustão, estresse e sensação de estar sempre apressado, todos diminuíram se comparados a um grupo de controle. Seu sono melhorou, e os professores afirmaram que se sentiram menos críticos.

Efeitos ainda mais interessantes vieram das observações em sala de aula. Quando os professores estavam mais presentes, a gritaria diminuiu, afirma Jennings. As salas de aula foram avaliadas como mais produtivas e emocionalmente mais positivas. Os estudantes estavam mais engajados.

Entre os estudantes que foram avaliados abaixo da média em habilidades sociais no início do estudo – presumidamente alguns dos mais vulneráveis – os indicadores também melhoraram. Mais uma vez, estes efeitos vieram do trabalho com os professores, não diretamente com os alunos.

Bonnie Kirkwood e Michele Coyle-Hughes trabalham numa escola pública no Bronx, a P.S. 279. Eles passaram o ano letivo que recém terminou ajudando a ensinar as técnicas do CARE a seus colegas.

Eles estão de volta ao retiro do CARE para Professores buscando encontrar formas de ampliar o alcance do programa ainda mais. “Eu lido com professores em crise, ” diz Coyle-Hughes. “Eu posso ver que eles precisam de mais ferramentas. ”

Cerca de um terço dos alunos desta escola de ensino fundamental moram em abrigos. Um grande percentual deles tem pais encarcerados ou que perderam a guarda dos filhos. A maioria ainda está aprendendo o idioma inglês, incluindo a população refugiada.

“Nossas crianças gravitam em torno do nosso prédio porque eles querem estrutura e rotina, ” diz Coyle-Hughes. Kirkwood, uma especialista em leitura. Ela afirma que as técnicas do CARE têm melhorado seu relacionamento com estudantes e colegas. “Estou aprendendo a dizer adeus e a Deus, ” ela diz.

(Ainda que as práticas ensinadas no CARE tenham raízes em muitas diferentes tradições, Jennings deixa bem claro que o programa é inteiramente secular e adequado para escolas públicas. Por exemplo, eles usam o termo “práticas de presença plena” no lugar de “meditação”.)

Assim como Coyle-Hughes e Kirkwood, Nicole Willheimer também concordou em ajudar a facilitar a formação de seus colegas, em outra escola pública do Bronx, a P.S. 140. Jennings e Turksma estão avaliando esta forma de expansão este ano, batizada de Coordenadores da CARE, com a ideia que estas técnicas vão ser melhor disseminadas se passadas de colega para colega, mais do que se forem impostas de cima para baixo pelos administradores.

Willheimer diz que o programa a ajudou a estar em melhor sintonia com seus alunos. Por exemplo, ao invés de aborrecer-se com o aluno que esteja batucando de leve na mesa, ela agora pode identificar se este garoto ou garota está fazendo isso numa tentativa de lidar com sua dificuldade em prestar atenção. E, tal qual outros professores, ela afirma que o CARE tem sido ainda mais útil para lidar com seus chefes, não apenas com os estudantes.

“Quando os administradores te chamam, você nunca sabe o que eles querem. Pode ser o caso de um pai aborrecido com você, ou que você se esqueceu de algo, ” ela diz. “Eu costumava ir correndo para as reuniões, encontrava um lugar rapidamente, e entrava de cabeça. Agora, eu pratico a atenção plena ao andar. Eu penso aonde estou indo. Quando eu chego, não estou acelerado. Eu sou capaz de receber críticas ou entrar em conversas sem que isso dispare um gatilho em mim. “

Durante o treinamento, os participantes do CARE conversam muito sobre “gatilhos”, “scripts” e sobre ser “reativo”. Experiências passadas podem moldar sua percepção sobre uma situação, e trazer emoções desproporcionalmente fortes ou inapropriadas. Se você adotar uma postura “reativa”, você sucumbirá a estas emoções, e seguirá o roteiro inconsciente da sua cabeça. Se você for “reflexivo”, você será capaz de pausar e fazer uma leitura mais acurada da situação.

Em uma das sessões, Jennings conta uma história recontada no seu livro “Mindfulness for Teachers”, sobre uma participante dos treinamentos anteriores do CARE. Ela se sentia imensamente incomodada com uma aluna de 7 anos que chegava atrasada todos os dias e atrapalhava a aula com suas risadas. Refletindo a respeito, a professora se lembrou que em sua família os atrasos eram severamente punidos. Ela se sentou para uma conversa com a menina e ficou sabendo que ela era filha de uma mãe solteira que trabalhava a noite, e a garotinha era responsável por se arrumar sozinha para ir à escola. E suas risadas não tinham a intenção de ser desrespeitosas, eram de constrangimento.

Depois de almoçar salada de beterraba, quinoa e folhas verdes, os professores se dispersaram para um exercício de caminhada e depois se agruparam em duplas para discussões. Aqui, em meio a flores silvestres e borboletas, é fácil sentir-se tranquilo.

Mas em poucas semanas um novo ano escolar terá início. “Eu posso sentir meu coração se acelerar quando penso que setembro (início do ano letivo nos EUA) está se aproximando, “ diz uma professora em uma sessão. “Em setembro, NÃO há espaço. Se você estivesse entrando numa escola no centro da cidade neste setembro, quais são as duas práticas da CARE que você traria consigo?” ela pergunta a Jennings.

Jennings responde que tem uma resposta empírica, com base em um estudo que sairá em breve, no qual a todos os professores foi perguntada a mesma questão. A resposta majoritária foi simplesmente parar, sempre que necessário, para respirar profundamente três vezes.

E a segunda resposta foi cultivar uma prática diária de respirações, caminhar praticando a atenção plena, fazer yoga e outras disciplinas de relaxamento. “Isto a ajudará a lembrar-se de fazer três respirações profundas sempre que você precisar! ”

 

Técnicas do CARE para aplicar em sala de aula

Atenção plena para estudantes e professores

·         1. Transições mais calmas

Quando for hora de ir para o recreio ou educação física, peça aos estudantes que façam três respirações profundas e então escutem o som de um sino. Diga a eles que escutem atentamente ao som, até que não seja mais possível ouvi-lo, antes de se levantarem.

·         2. Conte até 5

Sugestão de um participante do CARE. Para crianças muito pequenas ou inquietas demais para seguir a meditação normal. Sentados em silêncio, peça que notem 5 coisas que eles podem ver; então peça que fechem os olhos e contem 5 coisas que possam ouvir, em seguida, que notem 5 coisas que eles estiverem tocando.

·         3. Canto do silêncio ou cantinho da paz

Descrito no método Montessori e no programa de Resiliência Interna. Estabeleça um espaço na classe onde as crianças possam ir para lidar com emoções difíceis. Pode ter almofadas, bichinhos de pelúcia, livros calmos e sons suaves. Deve ser um lugar convidativo e não de punição.

·         4. Caminhar atento e centrado

Para professores, que estão quase sempre de pé: quando estiver em pé, concentrem-se na sensação de seu peso nos pés e a pressão dos pés sobre o chão. Quando estiverem caminhando, prestem atenção no peso do corpo passando de um pé ao outro.

 

Tradução livre de Daniela Degani do original
http://www.npr.org/sections/ed/2016/08/19/488866975/when-teachers-take-a-breath-students-can-bloom

 

 

child-740x357Crianças têm a reputação de serem irriquietas – e por uma boa razão. Não é nenhuma surpresa, então, que pais frequentemente busquem maneiras para acalmarem seus filhos.  Muitas vezes, isso significa suborná-los com lanches, brinquedos ou outros mimos (falo por experiência pessoal). Entretanto, há um método que nós geralmente ignoramos, mesmo que sua eficácia já tenha sido comprovada: a meditação. E, segundo especialistas, existem maneiras fáceis de ensiná-la às crianças.

“Em crianças, eu vejo a meditação ajudá-los a ser um pouco menos reativos e lidar melhor com o estresse em casa, na escola ou com os seus colegas” afirma Alison Pepper, assistente social e diretora do acampamento de verão do Centro de Meditação Shambhala na cidade de Nova York.

Talvez não pensemos nesta ferramenta como uma alternativa para tranquilizar as crianças porque nos parece coisa “new age” ou excêntrica demais para muitos de nós ocidentais, ainda que seja efetiva. A meditação tem sido praticada por milênios nas culturas orientais como uma forma de aprimorar a atenção. As pessoas a praticam sentando-se em silêncio no chão, observando sua respiração (inspiração, expiração, inspiração, expiração, etc.) por 30 minutos ou mais. Pesquisas mostram que a meditação ajuda a reduzir estresse, impulsividade e ansiedade em crianças, e pode até produzir alterações na estrutura cerebral que contribuem para o sucesso acadêmico. De fato, um estudo em São Francisco descobriu que a prática de meditação está associada a melhorias em notas nas provas de matemática e uma diminuição nas suspensões. Mas, deixando de lado os possíveis benefícios, se apenas a ideia de uma criança sentada imóvel por trinta minutos, prestando atenção em sua respiração como um Pequeno Buda te faz rir, não o faça ainda.
“Forçar alguém a sentar imóvel em silêncio não é o ponto, ” explica David Perrin, professor e mentor do Shambala. Como será a meditação depende de cada criança. Sejam elas cheias de energia ou mais reservadas, a chave é engajá-las de uma maneira que dialogue com seus interesses – e ajustar quando necessário.
“Crianças não precisam sentar de pernas cruzadas para praticar” diz Susan Kaiser Greenland, autora do livro The Mindful Child (que será em breve lançado em português) e co-fundadora do Inner Kids. “Elas podem praticar deitadas, de pé, sentadas em uma cadeira, e mais importante ainda, elas podem se mover.”

Que comecem os jogos

Uma maneira de ensinar meditação às crianças – mesmo sem que se perceba isso – é através do que a Susan chama de jogos de atenção plena. Esses jogos ajudam os pequenos a focarem nas experiências ao invés de pensamentos e emoções, que podem distrair ou mesmo serem demasiado intensos para a criança no momento.
Um exemplo é o jogo de desembrulhar. Ela recomenda que pais deem a seus filhos um pequeno chocolate embrulhado, como um Hershey´s Kiss, e encorajá-los a sentirem-no em suas mãos, desembrulhando-o bem lentamente, prestando atenção aos sons que o invólucro faz ao ser tirado do chocolate. Em seguida, os pais devem pedir a seus filhos que cheirem o chocolate – e pergunta-los se isso lhes deu água na boa – e então, finalmente, pedir que provem o doce. Com jogos como esse – que dificilmente tomam muito tempo – as crianças praticam a introspecção, usando suas mentes para tornarem-se familiares com seus corpos, sentidos e padrões de pensamentos e emoções.
Greenland recomenda outro jogo, particularmente útil antes das sonecas ou à noite na hora de dormir. Ela instrui os pais a colocar um bicho de pelúcia na barriga dos filhos e incentivar as crianças a “ninar” seus bichinhos com o movimento para cima e para baixo de suas barrigas provocado pela respiração.
Tal qual o exemplo do chocolate, ninar o ursinho dá à criança uma experiência sensorial, ajudando-a a atrair sua atenção para longe dos pensamentos acelerados e concentrar-se em relaxar. “Eles irão relaxando à medida que respiram suavemente e acompanham o bichinho mover para cima e para baixo,” diz Greenland.
Praticar a presença com crianças pequenas não precisa ser algo demorado ou complexo. “Comece praticando por curtos períodos de tempo, várias vezes ao longo do dia. Para crianças, isso significa um ou dois minutos,” explica Greenland.

Fazendo um teste

Como mãe de uma menina de 4 anos que, literalmente, não para quieta nunca, eu nunca considerei a meditação como um caminho para a calma. Mas fiquei intrigada; decidi então usar minha filha cheia de energia como cobaia. Após seu banho noturno, deitei-a com seu elefante de pelúcia sobre sua barriga e disse a ela que o ninasse com sua respiração. Ela me perguntou o porquê. Respondi que as respirações profundas a ajudariam quando a agitação chegasse. Depois de um ou dois minutos, seu corpo estava visivelmente relaxado e sua respiração mais profunda. Ela estava calma (uma raridade).
Perguntei como ela estava se sentindo. Ela me disse que se sentia bem. Quis saber sobre o que ela estava pensando enquanto movia o elefante para cima e para baixo.
“Nada, ” ela respondeu. “Apenas estava fazendo meu elefante dormir.”
Em dois minutos, minha agitada filha havia aprendido a arte de acalmar-se.
Tradução livre de Daniela Degani, do original:
http://vanwinkles.com/how-to-teach-your-kids-mindfulness-meditation

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Há muito é sabido que a meditação ajuda crianças a sentirem-se mais calmas, mas uma nova pesquisa está ajudando a quantificar seus benefícios para crianças em idade escolar. Um estudo de 2015 concluiu que estudantes do quarto e quinto anos do ensino fundamental que participaram de um programa de 4 semanas de meditação apresentaram melhoras em funções executivas tais como controle cognitivo, memória de trabalho, flexibilidade cognitiva – e notas mais altas em matemática. Um estudo publicado recentemente na revista Mindfulness encontrou melhorias similares nas notas de matemática de estudantes do quinto ano com déficit de atenção ou hiperatividade. E ainda uma pesquisa com crianças do ensino fundamental da Coreia mostrou que oito semanas de meditação diminuiu agressividade, ansiedade social e reduziu os níveis de stress.

Estas investigações, juntamente com a revisão publicada em março que investigou literaturas da psicologia do desenvolvimento e da neurociência cognitiva, ilustram como as práticas meditativas têm o potencial de realmente alterar a estrutura e as funções do cérebro de forma a promover o sucesso acadêmico.

Os princípios fundamentais da neurociência sugerem que a meditação pode ter seu maior impacto na capacidade cognitiva enquanto o cérebro está em seus primeiros estágios de desenvolvimento.

Isto se dá porque o cérebro desenvolve conexões nos circuitos pré-frontais em ritmo mais acelerado durante a infância. É exatamente esta “extra-plasticidade” que cria as condições para que a meditação tenha seu maior impacto nas funções executivas das crianças.

Ainda que a meditação apresente maiores benefícios em termos de redução de stress ou rejuvenescimento físico nos adultos, seus efeitos duradouros em atenção sustentada ou controle cognitivo são significativos em adultos, mas menos robustos que em crianças.

Um estudo clínico publicado em 2011 no The Journal of Child and Family Studies demonstrou este conceito de maneira soberba. O desenho da pesquisa permitiu que adultos e crianças fossem comparados diretamente, uma vez que estiveram envolvidos no mesmo programa de meditação e foram avaliados de maneira idêntica. Crianças entre 8 e 12 anos com diagnósticos de transtorno de déficit de atenção ou hiperatividade, juntamente com seus pais, participaram de um programa de treinamento de oito semanas em mindfulness. Resultados mostraram que a meditação melhorou significativamente a atenção e o controle dos impulsos em ambos grupos, mas as melhorias foram consideravelmente mais robustas nas crianças.

Fora do laboratório, muitos pais reportaram benefícios da meditação em crianças. Heather Maurer da cidade de Vienna na Virgínia (EUA), foi treinada em meditação transcendental e conduz três noites por semana sua filha Daisy, de 9 anos, em várias técnicas de visualização e exercícios com foco na respiração. Ela diz que sua filha se tornou claramente melhor em controlar suas emoções, um sinal de evolução no controle cognitivo. “Quando Daisy está chateada, ela se senta e se concentra em sua respiração até reencontrar seu equilíbrio, ” diz Maurer.

Amanda Simmons, uma mãe que coordena um estúdio de meditação em Los Angeles, tem notado melhorias similares em seu filho Jacob, de 11 anos, diagnosticado no espectro do autismo. Jacob ainda tem transtorno de déficit de atenção e transtorno bipolar, mas Amanda diz que muitos dos sintomas tem diminuído desde que ele começou a meditar diariamente e recitar mantras há seis meses atrás. “A meditação parece funcionar como um reboot de seu cérebro, que quase instantaneamente altera o humor e ameniza a irritação, ” diz Amanda. Ela acredita que isso permitiu diminuir a dose do Risperdal®, um antipsicótico usado no tratamento do transtorno bipolar.

Estando a criança sob medicação ou não, a meditação pode ajudar a inculcar, ao longo do tempo, o auto controle e capacidade de foco.  Talvez encorajar a meditação e práticas de mente-corpo venha a ser reconhecido como tão essencial para uma boa criação como ensinar aos filhos o valor do trabalho, de uma alimentação saudável e da prática de exercícios físicos regulares.

Tradução livre de Daniela Degani do artigo original publicado no dia 10/maio de 2016 no blog do The New York Times:
Dani
A Dani é mãe do Enzo (11) da Analía (7) e do Caio (11 meses). Gosta de inventar para eles historinhas que falem de generosidade, amor e compaixão. Como praticante budista, está envolvida no projeto da Sanga do Pequeno Buda do CEBB SP e é apaixonada por regar as sementes do darma no coração das crianças. Gostaria que todas as crianças pudessem encontrar em seus corações o silêncio e a tranquilidade para lidar melhor com emoções e situações da vida. Ajuda a enriquecer o conteúdo deste blog com temas relacionados às crianças.

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Pesquisadores ingleses realizarão um estudo com 7.000 adolescentes que durará 7 anos para avaliar o impacto da meditação da atenção plena na saúde emocional desses jovens.

Willem Kuyken, professor de psicologia clínica na Universidade de Oxford que está conduzindo o estudo, disse que a propagação da prática de meditação da atenção plena entre as crianças poderia fazer pela saúde mental da população britânica o mesmo que o flúor na água fez por seus dentes. Ele disse que escolheram os adolescentes como foco do estudo devido a evidências de que metade de todos os transtornos mentais começam antes dos 15 anos. O estudo pretende avaliar de a meditação é capaz de aumentar a resiliência a “uma vulnerabilidade fundamental” exibida pelos adolescentes: a dificuldade em manter a atenção frente a pensamentos e impulsos que podem se tornar esmagadores.

http://www.theguardian.com/lifeandstyle/2015/jul/15/mindfulness-study-meditation-7000-teenagers-impact

 

As escolas existem para para exercitarmos nossas aptidões acadêmicas, mas quando se trata de emoções, temos que nos virar sozinhos.

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Conflitos internos muitas vezes atrapalham o desempenho escolar de muitos alunos. Então por que nós não os ajudamos a desenvolver a inteligência emocional junto com a acadêmica? Será que os dois não são igualmente importantes? Tenho certeza de que eu teria me beneficiado de uma aula que ensinasse os muitos fatores que afetam a nossa felicidade, ou contribuem para a nossa motivação (ou falta de), ou de técnicas que nos ajudassem a nos concentrarmos em sala de aula.

Isso melhoraria o desempenho geral dos alunos em todas as disciplinas, porque nossas emoções governam a nossa capacidade de aprender. Os alunos precisam de orientação para navegar suas mentes, que são complexas e muito difíceis. À medida que envelhecemos, nossa identidades se desenrolam diante de nós, e nós operamos nossas mentes incansavelmente, apenas para nos mantermos inteiros.

Mas, ultimamente, os alunos não têm tido tempo para perseguir suas próprias identidades, porque estão todos muito ocupados estudando para passar nas provas. Muitos de nós nos perdemos de quem somos ao longo do caminho e passamos o resto de nossas vidas tentando nos encontrar novamente.

Infelizmente, muitas escolas recusam a idéia de investir tempo e esforço em desenvolver a inteligência emocional de seus alunos.

Ninguém estuda nada sobre felicidade ou motivação, ou sobre como se concentrar em aula. Mas por quê? Estas são qualidades que esperamos ver em qualquer aluno – motivação e foco – e quando não vemos, nos aproximamos do aluno para saber qual é o problema. Como eles poderiam saber? Ninguém nunca os ensinou o que poderia contribuir para a sua falta de motivação ou sobre a dificuldade em se concentrar. Em vez disso, os diagnosticamos como “clinicamente desinteressados” na escola.

Nós culpamos os alunos. Mesmo que ninguém nunca tenha parado para ensinar a esses alunos os aspectos técnicos de suas mentes e de suas emoções. Esperamos que os alunos entendam suas emoções da mesma forma como nós esperamos que entendam matemática, ciências ou gramática – temas que passamos anos plantando em seus cérebros – mas não dedicamos sequer um pingo de educação para as emoções.

Quando perguntamos qual é o problema, eles não têm a menor ideia.

Como podemos esperar que essas crianças tenham as respostas? Esse trabalho é do educador. Mas como ninguém sabe o que está causando todas essas emoções perturbadoras, prescrevem drogas para silenciar as “distrações”, deixando-os confortavelmente entorpecidos.

Nós os tratamos com antidepressivos e estabilizadores de humor – tranquilizantes, essencialmente – e comprimidos destinados a ajudá-los a se concentrar e a melhorar o seu desempenho global. Estes medicamentos muitas vezes colocam a criança em risco, sem mencionar o custo. A indústria farmacêutica, como era de se esperar, está crescendo rapidamente. Nesse meio tempo, os níveis de depressão são sempre crescentes, as taxas de suicídio estão subindo rapidamente, a cada dia mais alunos são diagnosticados com TDAH e, então recebem Ritalina, a correção rápida, fácil e imediata.

Isto só trata os sintomas do problema. O TDAH é um efeito colateral da educação ineficaz. Mas em vez de reestruturarmos a educação de uma forma que funcione para os alunos, continuamos tentando desesperadamente espremê-los em moldes nos quais continuam não cabendo.

No modelo atual, a educação só se preocupa com o intelecto acadêmico, distanciando-nos de nossas próprias emoções nesse processo, apesar do fato de as emoções serem uma força constante, e muitas vezes a mais difícil de operar e entender. Existem métodos para fortalecer e exercitar nossa inteligência emocional, mas estes têm sido em grande parte deixados de fora da educação. Já foram considerados um desperdício de tempo. Mas pergunto o seguinte: qual é o sentido de ensinar alguma coisa aos alunos, se não os ensinarmos primeiro a compreenderem a si mesmos? Que benefício terá empurrar toda essa academia goela abaixo dos alunos, se não os ensinarmos a engolir e digerir tudo isso?

~ Dakota Snow, escritora

Tradução livre de Jeanne Pilli do original:
http://www.elephantjournal.com/2014/01/emotional-intelligence-what-we-really-need-to-be-teaching-in-school-dakota-snow/

Cinco anos atrás, o escritor e diretor Pete Docter da Pixar chegou até nós para falar sobre uma idéia: um filme que iria retratar como as emoções funcionam dentro da cabeça de uma pessoa e, ao mesmo tempo, como moldam sua vida no relacionamento com outras pessoas. Ele queria mostrar como tudo isso opera na mente de uma menina de 11 anos de idade, atravessando tempos difíceis em sua vida.

Como cientistas que estudaram emoção durante décadas, recebemos a notícia com um enorme prazer. Acabamos trabalhando como consultores científicos para o filme “DivertidaMente” (“Inside Out”), lançado recentemente.

Nossas conversas com Docter e sua equipe foram quase sempre sobre a ciência relacionada às questões centrais do filme: como as emoções governam o fluxo de consciência? Como as emoções colorem nossas memórias do passado? Como é a vida emocional de uma menina de 11 anos de idade? (Estudos demonstraram que a experiência de emoções positivas começa a cair vertiginosamente em frequência e em intensidade nessa idade.)

“DivertidaMente” fala sobre como cinco emoções – que são cinco personagens do filme: Raiva, Nojo, Medo, Tristeza e Alegria – lutam pelo controle da mente de uma menina de 11 anos chamada Riley, durante uma tumultuosa mudança de Minnesota para San Francisco. (Sugerimos inicialmente que o filme incluísse toda a gama de emoções estudadas na ciência até o momento, mas Docter rejeitou essa ideia pela simples razão de que a história poderia ter apenas cinco ou seis personagens).

A personalidade de Riley é definida principalmente pela Alegria, e isso está de acordo com o que sabemos cientificamente. Os estudos demonstraram que nossas identidades são definidas por emoções específicas, que determinam a forma como percebemos o mundo, como nos expressamos e as respostas que provocamos nos outros.

Mas a verdadeira estrela do filme é a Tristeza, já que “DivertidaMente” é um filme sobre a perda e sobre o que as pessoas ganham quando são guiadas pela tristeza. Riley perde amigos e perde o seu lar quando se muda de Minnesota. Para complicar um pouco mais, ela está entrando na pré-adolescência, o que implica a perda da própria infância.

Nós discordamos de alguns detalhes de como a Tristeza foi retratada em “DivertidaMente”. A Tristeza é representada como um empecilho, um personagem lento que precisa ser literalmente arrastado pela Alegria na mente de Riley. Na verdade, os estudos demonstraram que a tristeza está associada a intensos estímulos fisiológicos, que ativam o corpo para que possa responder à perda. E no filme, a Tristeza é desajeitada e chata. Mais frequentemente, na vida real, a tristeza de uma pessoa atrai outras pessoas para oferecerem conforto e ajuda.

Discordâncias à parte, a personagem Tristeza dramatiza com sucesso duas idéias centrais da ciência da emoção.

Primeiro, as emoções organizam – em vez de atrapalharem – o pensamento racional. Tradicionalmente, na história do pensamento ocidental, a visão predominante tem sido de que as emoções são inimigas da racionalidade e que perturbam as relações sociais cooperativas.

Mas a verdade é que as emoções guiam nossas percepções do mundo, nossas memórias do passado e até os nossos julgamentos morais de certo e errado, geralmente no sentido de produzirem respostas eficazes para as situações de cada momento. Para exemplificar, alguns estudos constataram que a raiva dirigida ao que é injusto pode produzir ações para que as injustiças sejam remediadas.

Vemos isso em “DivertidaMente”. A Tristeza assume gradualmente o controle dos processos de pensamento de Riley sobre as mudanças que ela está sofrendo. Isso é mais evidente quando a Tristeza acrescenta tons de azul às memórias de Riley de sua vida em Minnesota. Estudos científicos demonstraram que as nossas emoções atuais moldam o que nos lembramos do passado. Esta é uma função vital da Tristeza no filme: ela orienta Riley a reconhecer as mudanças que ela está atravessando e aquilo que ela perdeu, o que prepara o terreno para que ela desenvolva novas facetas de sua identidade.

Em segundo lugar, as emoções organizam ­– em vez de atrapalharem – as nossas vidas sociais. Estudos demonstraram, por exemplo, que as emoções estruturam (e não apenas colorem) as mais variadas interações sociais como a ligação entre pais e filhos, conflitos entre irmãos, flertes entre jovens e negociações entre rivais.

Estudos também demonstraram que é a raiva (mais do que um sentido de identidade política) que move a coletividade a protestar e reparar injustiças sociais. A investigação conduzida por um dos nossos pesquisadores revelou que as expressões de vergonha levam outras pessoas a perdoarem ações que violaram as normas sociais.

Esse insight também é dramatizado no filme. Pode ser que você esteja inclinado a pensar na Tristeza como um estado caracterizado pela inércia e pela passividade, desprovida de qualquer ação intencional. Mas em “DivertidaMente”, bem como na vida real, a tristeza leva as pessoas a se unirem em resposta à perda. Vemos isso pela primeira vez durante uma explosão de raiva na mesa de jantar que faz com que Riley corra pelas escadas e se atire na cama sozinha no escuro, deixando seu pai sem saber o que fazer.

E quase no final do filme, é a Tristeza que leva Riley a se reaproximar de seus pais, incluindo formas de toque e sons emocionais chamados de “explosões vocais” – que têm sido estudadas por um pesquisador da nossa equipe – que expressam o profundo deleite do reencontro.

“DivertidaMente” oferece uma nova abordagem para a tristeza. A proposta central é: abrace a tristeza, deixe-a se manifestar, envolva-se pacientemente com as lutas emocionais de um pré-adolescente. A tristeza irá deixar claro aquilo que foi perdido (a infância) e impulsionará a família em direção àquilo que se ganha: as bases de novas identidades, para as crianças e para os pais.

Tradução livre de Jeanne Pilli do original:

http://www.nytimes.com/2015/07/05/opinion/sunday/the-science-of-inside-out.html?_r=2