Por que as Crianças Francesas não têm Deficit de Atenção? – Parte 2

05/21/2013 — 10 Comentários

O TADH é uma construção cultural

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~ Marilyn Wedge

Agradeço o Dr. Sarkis pelo interesse em responder ao meu artigo “Por que as crianças francesas não têm Deficit de Atenção?” O ponto principal do meu artigo é que não há nenhuma evidência científica de que o TDAH seja um transtorno biológico real. Os cientistas médicos não isolaram uma causa biológica para o TDAH, nem tampouco existe um teste de laboratório para determiná-lo. O TDAH é uma construção social, feita por uma comissão de psiquiatras que são os autores do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Muitos dos autores do DSM-4 (56% para ser exata) têm vínculos financeiros com empresas farmacêuticas, que têm muito a lucrar medicando crianças.

Numa versão anterior do DSM, o DSM-3, os autores construíram o TDA como um transtorno, mas no DSM-4 o TDA não existe mais. É certamente possível que o TDAH também desapareça de futuras edições do manual. Eu acho importante perceber que o DSM é um artefato da cultura, e que nem todas as culturas constroem problemas e sofrimentos humanos da mesma forma.

Como eu aponto em outro post na Psychology Today, TDAH: O Novo Diagnóstico do Imperador, “… o apelido TDAH apenas descreve um grupo de sintomas observados externamente: a criança, muitas vezes, se inquieta, comete erros por descuido nos trabalhos escolares, muitas vezes perde seus lápis, têm dificuldade em esperar pela sua vez, dá respostas precipitadas em sala de aula, e assim por diante. É como definir a diabetes como micção excessiva, sede frequente, falta de energia, e urina com cheiro doce. Claro que os médicos não definem diabetes por estes sintomas observáveis, ​​porque a diabetes tem uma causa biológica bem compreendida. A diabetes é uma doença metabólica em que o pâncreas é incapaz de produzir insulina suficiente. Mas o TDAH … [é] definido apenas por sintomas observáveis ​​externamente.”

Pode ser que o Dr. Sarkis e outros leitores também se interessem pelo meu artigo: “O TDAH existe? Uma Reflexão sobre Humberto Maturana”, postado em 25 de setembro de 2012 no blog do David Allen, Médico, Professor de Psiquiatria da Universidade do Centro de Ciências da Saúde do Tennessee e autor de três livros conceituados sobre psiquiatria.

Em meu trabalho como terapeuta de família ao longo de 23 anos, acho que a busca da causa subjacente da distração, desatenção e inquietação, etc de uma criança, no contexto social da criança (família, escola e amigos), é uma maneira mais segura e eficaz de ajudar a criança a superar seus problemas do que medicando-a com anfetaminas como a Ritalina. Como os psiquiatras franceses descobriram antes de mim, o diagnóstico da criança com TDAH não ajuda em nada se o objetivo for resolver o problema da criança, e não de mascarar seus sintomas com medicamentos potencialmente perigosos.

Muitos pais também estão começando a compreender a situação. Como explica Bronwen Hruska, em seu artigo do New York Times de 18 de agosto de 2012 “Criando a Geração Ritalina”, a causa para impaciência de uma criança, para um comportamento perturbador na sala de aula, pode muito bem ser devido a um fator do contexto social, como ter um professor que “não sabe o que fazer com os meninos.” Hruska também descreve seu choque quando leu sobre os possíveis efeitos colaterais de uma medicação indicada pelo médico de seu filho como um tratamento seguro para os sintomas do TDAH:

“Eu descobri que a lista formidável de possíveis efeitos secundários incluíam dificuldades em dormir, tonturas, vômitos, perda de    apetite, diarréia, dor de cabeça, torpor, batimento cardíaco irregular, dificuldade em respirar, febre, urticária, convulsões, agitação, tiques motores ou verbais e depressão. Pode retardar o crescimento de uma criança ou ganho de peso. O mais preocupante – pode causar morte súbita, especialmente em crianças com defeitos cardíacas ou problemas cardíacos graves.”

Recentemente, descobri outro fato interessante que pode lançar ainda mais luz sobre por que as crianças francesas não têm sido assoladas pela epidemia de TDAH, em número nada parecido com os números relativos a crianças norte-americanas. As crianças francesas não são expostas à TV como as crianças nos Estados Unidos, porque são protegidas contra isso. O governo francês de fato baniu programas de televisão franceses destinados a crianças com menos de três anos de idade.

Crianças francesas jovens são por vezes expostas a programas de TV em canais internacionais, mas agora esses canais devem alertar os pais sobre os efeitos negativos de assistir TV sobre o desenvolvimento. Este tipo de programação agora emite o seguinte aviso aos pais franceses, “Assistir televisão pode retardar o desenvolvimento das crianças menores de três anos de idade, mesmo quando se trata de canais voltados especificamente para eles.” O alerta é baseado em uma decisão do Alto Conselho Francês de Audiovisual: “Ver televisão prejudica o desenvolvimento das crianças menores de 3 anos de idade e apresenta riscos, incentivando a passividade, tornando a aquisição da linguagem mais lenta, excesso de estimulação, problemas com o sono e concentração, bem como a dependência das telas.”

Como profissionais de saúde mental que buscam clareza em nosso pensamento, e sempre novas maneiras de ajudar os nossos clientes, temos de estar conscientes de nós mesmos, vivendo e trabalhando dentro de um contexto cultural. Sair do nosso contexto para ver como outras culturas construem problemas humanos nos ajuda a nos tornarmos mais conscientes do que é natural e do que é cultural. Embora aprecie a referência Dr. Sarkis a Moliere, ele certamente descreve certos comportamentos irritantes em crianças. Mas o constructo “TDAH” não existia na época em que estava escrevendo suas peças. A diabetes é uma doença biológica que ocorre na natureza. Baseado no que a ciência médica sabe hoje, o TDAH é uma construção cultural que tenta explicar determinados comportamentos, as causas do que não é compreendido.

Como o estudo do Dr. Sarkis cita Faraone, et al (e et al inclui Dr. Joseph Biederman de Harvard), um comentário postado sobre o meu artigo original sobre esta pesquisa já diz tudo:

“Quando eu dei uma olhada no artigo citado por Faraone et al, o último nome na lista de autores (que é geralmente o responsável por angariar fundos para a pesquisa) me alertou. Joseph Biederman, da Harvard Medical ganhou certa notoriedade devido ao financiamento de sua investigação. Se você estiver interessado em saber quem pagou por esta pesquisa publicada em 2003, dê uma olhada no New York Times:

http://www.nytimes.com/2009/03/28/health/policy/28subpoena.html

e

http://www.nytimes.com/2008/06/08/us/08conflict.html

Artigo Original

10 Respostas para Por que as Crianças Francesas não têm Deficit de Atenção? – Parte 2

  1. 
    Vera Maria Bertolini comin 05/22/2013 às 16:10

    Ivana, sempre soube do teu potencial, Li o teu artigo. Também me interesso em saber tudo, ler, pesquisar e discutir qualquer assunto. Também sou proveniente de um lar onde a busca do saber sempre veio em primeira instância. Embora minha profiissão não tenha a abrangência infantil, sempre preenchi as lacunas com o conhecimento das causas. Muito interessante o teu trabalho e de muito valor para qualquer área de estudos hmanísticos. Espero que consigas atingir o ápice no teu trabalho, o que seria mais uma conquista para o comportamento humano.

  2. 

    Sou psicólogo comportamental cognitivo com atuação em clínica, ONGs e ministro aulas de psicologia nesta abordagem. Partilho de sua opinião e estou compartilhando seu texto em minha página no FB. Já atendi diversas famílias que passaram por situações desastrosas por conta desta cultura da medicalização do comportamento infantil, considerado patológico por pais impacientes e professores incompetentes. Cheguei a ouvir de um neurologista, numa situação que o indaguei sobre a dosagem da medicação que o mesmo havia prescrito para uma criança de 8 anos, que ele havia medicado somente pelo relato da mãe, que nem tinha visto o menino. Sou a favor da psico-educação, ou seja, vamos instruir pais e profissionais que atuam com famílias, crianças e adolescentes. Atenção adequada e de qualidade ainda é o melhor remédio para os chamados “comportamentos patológicos” das crianças.
    Carlos Alberto Aleixo, aleixopsicologo@outlook.com

    • 
      Raquel Aparecida 05/24/2013 às 13:22

      concordo plenamente,as crianças só são crianças que precisam ser educadas,orientadas estimuladas com exemplo e alfabetizadas com sucesso,até que se tornem adultas e sejam aptas a assumir suas responsabilidades.As adaptações necessárias e estratégias de ensino na classe fazem parte da educação,se o professor só queixa e não busca resolver com inteligência é esta educação que está passando.Afetividade faz com que a criança veja exemplo de como tratar o semelhante.

  3. 

    Olá parabéns pelo artigo, embora eu não concorde totalmente acho muito importante esse tipo de abordagem. Concordo que a medicação é utilizada muito mais do que deveria.

    Além de que em muitos casos a medicação não seja necessária, muitas crianças no EUA são erroneamente diagnosticadas. Acho que talvez seja por displicência médica, pois lá os atendimentos são muito rápidos (nem tanto quanto aqui), e a medicação traz resultados aparentemente cômodos para os pais, visto que a criança fica mais comportada e estudiosa. E é mais conveniente para o médico receitar ritalina do que mandar para um terapeuta e perder um cliente.

    Mas o que discordo plenamente deste artigo é julgar o diagnóstico por não ser feito um exame de laboratório. Existe sim este exame, só que é simplesmente para provar a existência de alteração cerebral, feito para fins científicos, seria muito inviável realizar o exame para diagnóstico, e de certa forma desnecessário visto que o exame clínico (da França) pode chegar a uma precisão maior que o de laboratório. Inclusive já foram identificados os traços genéticos envolvidos no transtorno.

    Ainda, gostaria de ressaltar que os exames clínicos realizados para doenças mentais como bipolaridade, esquizofrenia, TDAH e outras são muitas vezes a única forma de identificá-las, pois algumas delas nem sabemos a causa exata ainda, mas tem-se tratamento à base de medicação que salva a vida de milhões de pessoas e poupa outros milhões de sérios problemas.

    Fora isso, ainda temos o relato de milhares de portadores de TDAH, que, como eu, tiveram uma melhora muito mais significativa com a medicação e terapia juntos do que só a terapia, que muitas vezes é insuficiente. Deve-se no entanto avaliar o custo-benefício dos efeitos colaterais do medicamento, sem, claro, ater-se apenas à bula do medicamento , que nem sempre é um indicativo real dos problemas causados ao paciente.

    Basta ver as estatísticas de bipolares suicidas sem medicação que pode chegar a 15% em alguns países. Muito maior que 0,001 % que uma medicação de controle de humor tem na mortalidade de pacientes. Tem-se notado também que o número de portadores de TDAH que usam drogas na fase adulta é maior para aqueles sem tratamento com ritalina na infância.

    Concluindo, acho que não se deve dispensar o uso de medicação, apenas tentar evitá-lo (como na França) por não conhecermos ainda nosso cérebro a ponto de entendermos completamente esses transtornos.

    Mas parabéns pelo artigo, excelente abordagem, concordo com todo o resto, principalmente no uso da terapia como tratamento para TDAH, o que deveria ser obrigatório para quem toma ritalina.

    O importante é a discussão aberta sobre o assunto.

    obrigado

  4. 
    Luciano Filho 04/10/2015 às 06:47

    Bom dia!

    Senhora… ,

    Obrigado pela bela edicão. Tenho tdah e luto desde os 4 anos por ser hiperativo. Hoje tem um ano que n tomo ritalina. Já usava desde os 6, hoje tenho 20. E estava com espasmos bem visíveis. Após parar melhorei. E aprendi com a psicanálise que um ser humano é mais que uma máquina, não se toma algo e melhora.
    Muito obrigado mesmo!

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