O TDAH existe? Uma reflexão sobre Humberto Maturana

05/21/2013 — 15 Comentários

~ Marilyn Wedge

EQ Maturana

Em julho de 2012, assisti a uma palestra do ilustre biólogo, filósofo e pensador construtivista chileno, Humberto Maturana, numa conferência em que nós dois éramos palestrantes. Maturana é mais conhecido por sua teoria da autopoiese. Simplificando, a autopoiese (que significa, literalmente, auto-criação) é a visão de que o mundo em que vivemos é um mundo que nós mesmos criamos.

De acordo com Maturana, toda a realidade, incluindo o fato de que as teorias científicas pretendem elucidar, é em última análise, auto-referencial e, portanto, deve levar em conta os cientistas que estão executando a elucidação. Todas as construções teóricas contêm implicitamente uma referência para a pessoa que está fazendo a teorização. E, de acordo com Maturana, é mais honesto estar ciente da auto-reflexividade de nossas teorias do que não estar. Ele é, em certo sentido, a encarnação moderna do antigo sofista Protágoras, que disse a famosa frase: “O homem é a medida de todas as coisas.”

É claro que muitas pessoas acusaram Maturana de solipsismo [a teoria que considera que o eu não pode conhecer nada além de suas próprias modificações e que o ego é a única coisa existente], mas acho que essa crítica não entendeu o ponto principal. A importância do que Maturana está tentando transmitir pode ser melhor compreendida se entendermos sua filosofia como uma contramedida ao dogmatismo. A visão de Maturana é humilde – assim como ele mesmo se mostra mais humilde do que seria de se esperar, considerando sua fama e importância como biólogo e filósofo. Suas idéias nos levam a questionar afirmações sobre a realidade que não levam em conta a agenda ou os motivos das pessoas que estão fazendo a afirmação.

Como terapeuta, eu achei ponto de vista radical de Maturana muito de acordo com a maneira como vejo o meu trabalho. Quando a criança ou o jovem entra no meu consultório, muitas vezes ele tem uma ou mais etiquetas de diagnóstico. Um pai vai me dizer, “o professor do meu filho acha que ele tem TDAH ou TOC” ou “o pediatra da minha filha diz que ela tem TDAH.”

Quando você pensa sobre isso, o TDAH é uma construção humana, em particular, a construção de um painel de psiquiatras, que é o autor de um manual de diagnóstico chamado o DSM4. E muitos destes palestrantes, 56% deles para ser exata, aceitaram dinheiro de empresas farmacêuticas, durante o tempo em que estavam criando os diagnósticos no manual. Aqui está um exemplo importante de como a natureza reflexiva das construções teóricas devem ser levadas em conta para serem compreendidas.

Portanto, a resposta à pergunta: “Será que o TDAH existe?” realmente depende da agenda do observador. Pessoalmente, acho que é mais útil descobrir as causas sociais subjacentes da inquietação ou distração da criança e fazer alterações específicas no ambiente social para remover os estressores. A criança ouve seus pais brigando ou discutindo o tempo todo? A criança está sendo abusada? A criança tem um professor que não é capaz de lhe dar a atenção extra que ela precisa, porque tem que lidar com uma sala de aula superlotada?

Eu não preciso construir um diagnóstico de TDAH para ajudar uma criança. Na verdade, a construção de um diagnóstico de TDAH não é útil a todos, porque a única maneira de tratá-la é por medicamentos estimulantes, que podem, a longo prazo, ser prejudiciais para o desenvolvimento do cérebro da criança ou a predispor a se tornar um viciado em drogas quando se tornar um jovem adulto. Além disso, a construção do diagnóstico tende a obscurecer a causa da angústia da criança. O diagnóstico não me ajuda a descobrir o que eu preciso fazer para ajudar as crianças a superarem seus problemas. A construção de um diagnóstico, no entanto, é muito útil para as empresas farmacêuticas, que só se interessam pelas drogas, e também para os autores do DSM, que dependem de empresas farmacêuticas para financiarem suas pesquisas e lhes proporcionar férias caprichadas.

Partindo disso, podemos ver o poder da teoria construtivista de Maturana como um antídoto para afirmações dogmáticas sobre a realidade – em particular, do complexo psico-farmacêutico. Usando o ponto de vista construtivista de Maturana, o TDAH não existe como uma realidade objetiva, e cabe ao terapeuta individual, escolher construir o problema de um filho como TDAH ou não.

Artigo original

15 Respostas para O TDAH existe? Uma reflexão sobre Humberto Maturana

  1. 
    Monsieur Ronde 05/21/2013 às 01:04

    Brilhante.

  2. 
    Arthur Tavolieri Pagliara 05/21/2013 às 07:31

    Jeanne, é um prazer te reencontrar, principalmente lendo assuntos tão interessantes e bem colocados!
    A cardiologia também está indo ao encontro dos agentes estressores que em última instância favorecem a inflamação tecidual responsável por eventos vasculares (infarto agudo do miocárdio, avc, pela formação de placas de gordura no interior do vaso).
    O tratamento preventivo deve incluir sessões de análises e olhar o paciente como um todo, incluindo vida familiar e profissional e não apenas pelos seus resultados laboratoriais.
    Parabéns pelos artigos!
    Sucesso!
    Arthur.

  3. 

    Alo Jeanne, sobretudo gostei do jeito “delicado” de denunciar a manipulação cruel da industria farmaceutica e a subserviencia cega dos autores dos DSM (todos, desde que existem).

  4. 
    nara maranhão 05/29/2013 às 14:33

    Esse artigo é muito bom.Cada vez mais,entramos num consultório médico (especialmente psiquiátrico)como um sujeito,e saímos como um objeto de pesquisa.li uma publicação que dizia que 80%das crianças americanas tinham deficit de atenção,e tomavam medicamentos.Não será,então ,o caso,que elas sejam as normais?

    • 
      Jeanne Pilli 05/29/2013 às 16:30

      80%? Acho um pouco demais…

      • 

        Entrei aqui por acaso num link envido por uma amiga. MAs não poderia ter sido tão apropriado. Já senti isto na pele e ainda sinto na familia os resultados de dignósticos, prog´nósticos x fármacos. É deseperador cair na real. Abs

  5. 

    Curioso que as primeiras descrições do TDAH datam do século XIX, quando se quer existia indústria farmacêutica…Há uma banalização do diagnóstico? Certamente.Agora, negar a doença e pôr tudo na conta da indústria farmacêutica é cair na superficialidade fácil e palatável, especialmente para o leigo que nada ou pouco sabe sobre os transtornos mentais.

    • 

      Adorei a sua resposta, sofro desde a minha infância com TDAH só agora com o tratamento comecei ter uma vida melhor

  6. 

    Achei o texto muito bom. Seu blog sempre traz artigos interessantes e elucidativos, que incitam a reflexão.

    Essa questão do TDAH é especial para mim porque onde estudo (psicologia) os professores e alunos são obcecados por criticar esse transtorno e a psiquiatria. Eu concordo com muitas das críticas: é fato incontestável que é um excesso de diagnósticos desnecessários ; é fato que muitos psiquiatras tratam os pacientes como coisas que chegam, descrevem sintomas e já levam um diagnóstico na cara junto com uma receita medicamentosa; é fato que a terapia farmacológica não é o único meio de tratar transtornos, existe a meditação, a terapia cognitivo-comportamental e muitas outras formas de tratamento. Também é fato que olhando ao redor dessas características, existe a indústria farmacêutica proporcionando certo viés nessas práticas.

    No entanto, não acho que admitir essas críticas seja sinônimo de dizer que os transtornos não existem ou que os remédios não funcionem – nem que sejam usados como estratégias de curto prazo. Até escrevi dois textos sobre isso no meu blog, por esses dias: http://www.nerdworkingbr.blogspot.com.br/2013/05/o-dsm-nao-e-tao-vilao-assim.html e http://www.nerdworkingbr.blogspot.com.br/2013/05/a-discussao-sobre-o-dsm-continua-mas.html

    A questão é que estamos usando predominantemente uma estratégia terapêutica que devia ser paliativa, assim como no governo, cotas e bolsas deveriam ser medidas paliativas para igualar as oportunidades de acesso à universidades ou diminuição da pobreza. Mas não, nos mais diversos campos reproduzimos estratégias não tão boas à longo prazo, porque elas beneficiam a um ou outro.

    Outro equívoco que vejo frequentemente é confundir a biologia relacionada a um transtorno com a impossibilidade de que esse transtorno tenha causas ambientais. É claro que a sociedade na qual nos encontramos influencia na perda da capacidade de desenvolver a atenção devidamente, desde em crianças até em adultos. Eu mesmo às vezes tenho que parar e me focar em algo, pois passando muito tempo na internet, passo a ter capacidade pequena de me focar por muito tempo em algo. Dependendo da gravidade da situação, o remédio seria uma medida inicial, que iria sendo substituída aos poucos por estratégias melhores, como o treino da meditação – o que me leva ao que escrevi acima.

    Sobre a visão do Maturana, acho bem curiosa. Sei muito pouco sobre e não tenho condição de lançar uma boa crítica – positiva ou negativa. Mas gostei muito de tal olhar. Pretendo pesquisar mais.

  7. 

    Pessoas, sejam quais forem suas especializações, sou diagnosticado com TDAH. Lendo isso penso que não há sintomatologia, que não há especialidade ou mesmo especialista. Usei Vivance, não senti qualquer utilidade. Troquei por Ritalina LA. Me foi indicado usar 30mg/dia. Por conta própria comecei a tomar 60mg/dia. Senti o que eu queria sentir de diferente quando fiquei sabendo da “doença” e do tratamento”. Não venham colocar o dedo no meu bolo agora que me sinto leve com o uso de um aditivo para minhas atividades pessoais e profissionais. Toda minha vida começou a mudar depois que fiquei sabendo o que seria um tal de TDAH. Fui ler muito a respeito. Fiquei feliz em saber que eu tinha um alvo a atingir se quisesse melhorar alguns aspectos de minha vida. Fui atrás de informação, atrás de tratamento, atrás de medicamento. Coloquei toda minha família sob este foco, o que ajudou a esclarecer diversas atitudes leves de meu dia a dia, mas que me prejudicavam e me faziam ser visto de uma forma que não me agradava. Me Expus sem medo, cada dia mais. Isso me deu coragem que eu nunca tive em relação a muitos aspectos, me ajudou a enfrentar diversas batalhas, diversos dogmas que eu tinha. Me ajudou a tornar-me forte em pouco tempo.

    Desta forma desafio mesmo que diz que isso não existe. Desafio alguém a colocar um ponto onde termina o ser “normal” e inicia um ser com TDAH. Se a chamada indústria é tão maléfica é porque eles tem uma bela justificativa: Nem eles nem você são capazes de delimitar o que é ou não TDAH. Eu tenho (ou não), mas estrou em tratamento. Estou melhor e mais feliz e contente. Desculpe-me, aceito todos os comentários a respeito. Deixo meu endereço para troca de mensagens se acharem que devem. edu.oro.br@gmail.com . Fiquem muito à vontade…porque….eu estou!

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